Liderança no balneário

“Se tens uma cesta com cem maçãs perfeitas e uma podre, em pouco tempo, todas estarão podres”

José Mourinho é o autor desta frase e demonstra a filosofia do treinador português, totalmente oposta á de Florentino Perez há 10 anos atrás. O Madrid galáctico de Beckham, Raúl, Figo, Zidane, Ronaldo, Owen, Roberto Carlos e Casillas não ganhou um único título. Por outro lado o Barcelona de  Eto’o, Ronaldinho, Deco, Xavi, Iniesta e Valdés teve os mesmos resultados. Os últimos três foram bastante criticados na altura e hoje são a espinha dorsal do Barcelona de Guardiola. Todos eram “maçãs”, mas acabaram por apodrecer.

Tanto Guardiola como Mourinho tem filosofias parecidas, o grupo é o mais importante. Se perguntar-mos aos jogadores de equipas como o Porto de Mourinho ou o de Villas Boas etc. todos destacam “o bom ambiente” e o “espirito de equipa”.  Estas equipas eram inferiores a alguns adversários que se enfrentaram nas suas epopeias, piores na comparação homem a homem, mas superiores como equipa. A união entre jogadores e a fé “cega” no seu líder faz com que o rendimento se torne superior.

O FC Porto de Villas Boas era praticamente o mesmo que herdou de Jesualdo. Jogadores como Hulk, Belluschi ou Guarín (deixando de lado conceitos tácticos) com Jesualdo tinham um rendimentos muito baixos e na época seguinte fazem uma temporada fantástica vencendo tudo o que havia para vencer. Numa equipa em que todos defendiam e atacavam por igual, com uma grande agressividade e excelentes gestos técnicos.

Villas Boas e Di Matteo

Villas Boas acreditou que a filosofia que usou no Porto podia ser aplicada em Stanford Bridge. Logo na conferência de imprensa de apresentação, usou mais que uma vez o chavão “grupo”, chegando a dizer que ele era o “The Group One” para evitar comparações com José Mourinho.

Cometeu o erro de tentar mudar a filosofia do clube antes de mudar os jogadores. AVB não se atreveu a vender as “vacas sagradas” do plantel, talvez por pressão de Abramovich(?). Terry, Drogba, Lampard ou Cech eram líderes de um balneário, independentes ao ex-analista de jogos de Mourinho e são eles quem ditam as regras.

Nos balneários há hierarquias e se estas não respeitam o treinador ou os jogadores liderantes, “a corda acaba por rebentar do lado mais fraco”. Se jogadores como Lampard ou Drogba são suplentes e os jovens e recém-contratados, como Oriol Romeu, são titulares, a equipa nunca poderá evoluir de forma sustentada. Os “chefes” do balneário acabarão por intimidar os mais jovens e estes irão perder o atrevimento dentro e fora do campo.

Esse foi o grande erro de André Villas Boas. Deveria ter vendido Terry, Drogba ou Lampard logo no início da época. Os três não são, nem eram no Verão de 2011, jogadores de classe mundial. Com três jogadores inferiores para a mesma posição a substituí-los, os resultados seriam outros.

Di Matteo percebeu isso logo de início, foi inteligente e deu o comando aos “pesos pesados”, eles seriam os jogadores chave na nova estrutura. Se eles estão comprometidos, a equipa estará comprometida. Ser treinador de uma grande equipa, requer a gestão de egos. Os jogadores chave não admitem ser suplentes. As coisas tem que ser definidas logo no início da época. Ou são transferidos ou são titulares, caso contrário irão “contaminar o resto das maçãs”.

Treinador fraco ou treinador forte

O Real Madrid sempre teve uma idiossincrasia diferente da do Barcelona. Enquanto recordamos o Barça de Cruyff, de Van Gaal ou de Guardiola, o Real Madrid sempre foi recordado pelos jogadores, como os da “Quinta del Buitre”, “Os Galácticos”. Até mesmo as equipas mais fracas dos merengues é recordada pelos jogadores como a “Quinta dos Garcia” ou o “Madrid dos Ferraris”.

Casillas contava há uns tempos que na altura de Vicente del Bosque, foi o capitão Hierro quem o pôs no banco em detrimento de César. Alguns jogadores contaram que eles é que decidiam os titulares, como a equipa que ganhou a 7ª Champions.

Com a chegada de Mourinho, tudo isso mudou. Ele sabia desde o principio que havia um conflito permanente entre o balneário e o treinador naquele clube. Usou uma estratégia que deu frutos. Desde que chegou contratou muitos jogadores e muitos deles com um papel secundário (Altintop, Sahin, Coentrao, Varane). Mourinho precisava de moldar o balneário á sua figura, precisava de jogadores da sua confiança e eliminar os potenciais desestabilizadores como Raúl, Guti ou Valdano.

Para que um líder funcione é preciso que o liderados acreditem no seu líder e vice-versa. Todos precisam de estar comprometidos. E se há um jogador que não cumpre esta regra, precisa de ser transferido. Veja-se o caso de Ibrahimovic no Barcelona, onde foi substituído por um jogador  inferior como Pedrito.

Se um jogador não aceita as regras do treinador e acredita ter mais poder que ele, é um potencial problema e procurará disputas como duvidar das estratégias do treinador e fazer pressão para que o resto de jogadores o acompanhem. Até agora Mourinho tem conseguido vencer os seus balneários. No Inter, os seus jogadores estavam comprometidos ao máximo, embora a equipa tenha sido feita com alguns dispensados de grandes equipas como Sneijder ou Eto’o.

O terceiro ano de Mou, será o mais ambicioso. Apenas no Chelsea treinou por mais de 2 anos. Diz-se que o seu modelo de liderança se esgota depois de dois anos pelo desgaste emocional. No seu 3º ano de Chelsea houve uma disputa com a direcção que lhe impôs reforços que não tinham o seu aval, como Ballack e Shevchenko. Teve que alterar o seu esquema de 4-3-3 para 4-4-2 e o director desportivo ganhou mais poder.

Num balneário, os jogadores apenas distinguem treinador forte de treinador débil, o treinador quando perde a sua fortaleza e liderança está condenado. E basta que um jogador não acredite, para que o resto deixe de acreditar com o passar do tempo.

2 comments on “Liderança no balneário

  1. “O Madrid galáctico de Beckham, Raúl, Figo, Zidane, Ronaldo, Owen, Roberto Carlos e Casillas não ganhou um único título. Por outro lado o Barcelona de Eto’o, Ronaldinho, Deco, Xavi, Iniesta e Valdés teve os mesmos resultados. ”

    o madrid galáctico embora ainda não com todos esses jogadores (acho que beckham e owen não estavam), foi campeão espanhol e ganhou a liga dos campeões. o barça com essa equipa também foi campeão, salvo erro duas vezes, e venceu a liga dos campeões.

    • Jornal Dez diz:

      Olá Bernardo,

      Estava-me a referir ao Real Madrid com todos esses jogadores juntos. O culminar no “projecto galáctico”, Figo, Zidane venceram a Champions e o campeonato.

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