O império Cruyff

Em Agosto de 1973 aterrava em Barcelona, no meio de muita euforia, um holandês esguio que já tinha ganho 3 Taças dos Campeões Europeus. Era a esperança dos adeptos culés que já não ganhavam a Liga há 14 anos. O seu nome era Johan Cruyff e quase 40 anos depois o seu legado continua vivo na cidade condal.

Aquela temporada de 73-74 tornou-se mítica, o Barcelona iria ser campeão depois de vencer por 5-0 no Santiago Bernabéu, daquele golo fantástico ao Atlético de Madrid e Johan o sua 3ª bola de ouro. Esteve no clube mais 3 anos mas só venceria uma Taça do Rei. Regressaria.

Um motim dos jogadores contra o presidente Josep Lluis Nuñez culminava duas décadas de fracasso. Uma Liga nos anos 70 e outra nos anos 80 acentuava a crise que se vivia em Barcelona, Nuñez precisava de um salvador e Cruyff chegava em 1988 ao banco do Camp Nou para dirigir a equipa catalã. Cruyff pediu o poder para si e Nuñez, fragilizado entregou-o. Talvez se o clube não estivesse naquela situação delicada, Cruyff nunca treinaria o Barcelona, como o próprio o admite.

“O futuro nas suas mãos” titulava o Mundo Deportivo na altura e o holandês revolucionou o balneário. Apenas 9 jogadores da época anterior continuariam. Os demais seriam substituídos por “canteranos” como Amor ou Milla. Surpreendentemente ou talvez não, o treinador holandês apostou por jogadores bascos como Salinas, Bakero e Beguiristain. O núcleo duro era formado por Zubizarreta, Lineker e Alexanco, complementado pelo talento de Soler e Eusébio. A equipa estava formada, se funcionaria ou não, era outra questão.

Não havia tempo a perder. Desde o primeiro amigável, Cruyff apostou pelo 3-4-3. Milla, 22 anos, exercia de numero 4. Á frente dos defesas: dois médios interiores, extremos bem abertos junto ás linhas e um número 9 bastante móvel que em nada se parecia á posição de ponta de lança da altura.

A época começa com a Supertaca frente ao Real Madrid, perde o troféu mas ganha em jogo. Voltariam a enfrentar-se á 7ª jornada e uma nova derrota desperta as primeiras duvidas.

“Os jogadores ficavam surpreendidos” conta Zubizarreta “Como era possível cobrir 50 metros de largura só com 3 homens e deixar tanto espaço entre o guarda redes e os defesas?” ainda para mais “Zubi” não tinha um bom jogo de pés. No ataque a mesma coisa, Cruyff mandava Lineker e Salinas, pontas de lança de renome, descaírem para as alas. Com os treinos as engrenagens iam ficando cada vez mais oleadas: passe, controlo e posse. Sempre com a bola como protagonista.

Em Março, já com o apuramento da Taça das Taças garantido, jogava-se o futuro da liga frente ao Real Madrid e Nuñez, o seu futuro como presidente. Cruyff faz estrear a um paraguaio acabado de chegar: Romerito. Apesar das ocasiões, arranca um empate a zero. Nuñez também assegura o seu lugar.

O Barcelona viajaria a Sofia para jogar contra o CSKA de Stoichkov. Vencem a eliminatória e um mês depois ganhariam o primeiro título da era Cruyff: uma Taça das Taças em Berna. O campeonato vai para Madrid.

No defeso, enfrenta-se a um Nuñez pouco gastador, isto permite-lhe “trocar” Lineker e Romerito por duas peças chave: Koeman, para liderar o centro da defesa de três e Michael Laudrup, um enorme talento que estava deprimido em Turim, para dar profundidade e capacidade de um contra um no jogo de passe.

A época seguinte, o Barcelona volta a falhar frente ao real Madrid e só uma vitoria na Taça do Rei salva o lugar de Cruyff. Era preciso uma 3ª revolução.

Milla inconformado com o seu salário enfrenta o treinador e acaba por sair a custo zero para o Real. A contratação do bota de ouro Stoichkov confirma-se, por fim.

O Barça da altura não sabia o que era ganhar uma Liga sem a dominar de principio até ao fim. A época começa com boas sensações, Stoichkov marca no derby de Barcelona e abre o caminho a muitas vitorias. Contudo, Koeman lesiona-se com gravidade e perderia grande parte da temporada. Nos clássicos as coisas não melhoram e perdem a Supertaça. Em Fevereiro, o tabaco e o stress “passam factura” a Cruyff e este tem de ser submetido a uma operação ao coração.

Estas baixas não se fizeram sentir na equipa, que ia jogando bem e construindo o caminho para o título. Cruyff voltaria no jogo contra a Juventus, para a Taça dos Campeões Europeus, implementando a moda do chupa-chupa (substituto dos cigarros). Conseguiriam mais uma final europeia, mas perderiam mais uma vez. A liga serviu de consolação. Júlio Alberto despedia-se do futebol dizendo “Desfrutem desta equipa, que temos campeões para muito tempo”

Sempre na linha da frente, passava uma imagem de guru iluminado e extravagante. Com paciência e acreditando nele, conseguiria transformar os jovens da cantera em futuras estrelas. Em 1990, estreia Guardiola, substituto natural de Milla e que se tornaria no seu discípulo duas décadas mais tarde. Seria um jogador fundamental no sistema de Cruyff, apesar dos altos e baixos na relação entre os dois.

Um inicio irregular na Liga, coloca algumas duvidas na conquista da recém criada Liga dos Campeões, alguns jogos épicos e golos impossíveis garantiram a final de Wembley que venceriam no prolongamento frente á Sampdoria com um grande livre de Koeman. O jogo ficaria marcado a ferro e fogo como o apogeu da história culé. Juntaria a Liga, que o Real Madrid perde em Tenerife num minuto de loucura.

O Barça de Cruyff seria tetra-campeão e em Atenas tinha a oportunidade de se coroar rei da Europa em 93/94. A relação com os jogadores tinha piorado, Zubizarreta soube no caminho que não continuava na equipa, Laudrup estava também de saída e Koeman, Romário e Stoichkov defrontariam o Milan de Capello, que não podia contar com os Baresi e Costacurta, titulares da defesa. Desailly e Savicevic chegaram para liquidar um Barcelona em fim de ciclo por 4-0.

Cruyff subestimou o Milan. Deu por garantida a vitoria e já estava a planificar a próxima temporada. Tinha pedido a chave do cofre a Nuñez para contratar Rui Costa, Bergkamp ou Giggs, mas obteve um não como resposta, carimbado por “essas contratações até a porteira do meu prédio as fazia”. Conseguiu Gica Hagi e subiu a alguns miúdos da cantera, mas dificilmente iriam sustentar um Barcelona sedento de vitórias. Acabou também por subir ao genro e ao filho, que se revelaram um desastre.

Essa temporada de 94/95 acabou por ser um desastre, o maior erro do holandês foi ter dado a titularidade a Romário, que tinha chegado com um mês de atraso, depois de vencer o Mundial de 94. Foi a única época em que não ganhou nada.

Nuñez cansou-se no final de Maio de 96. Antes, tinha-se encontrado com Bobby Robson, treinador do FC Porto e acordou um contrato para as seguintes épocas. Gaspart, vice-presidente, foi quem mediou a rescisão com Cruyff, mas não o soube despedir. Quem estava no balneário diz que houve uma discussão terrível, “voaram” cadeiras, insultos e ameaças. Johan estava furioso pela traição e saiu do clube antes que o campeonato terminara.

Os adeptos furiosos mostraram todo o seu desagrado no dia seguinte, por vezes discordavam dele, mas não aceitavam que se terminasse desta forma uma das etapas mais gloriosas do clube.

Cruyff mudou para sempre a mentalidade do Camp Nou. As conversas que diziam “Este ano é que vai ser” ou “vamos sofrer” acabaram, disparou a auto-estima culé e criou as fundações de uma filosofia que será reavivada e até exagerada por Pep Guardiola. Como disse Valdano, depois da demissão “Saiu Cruyff, um obstáculo menos para o progresso dos mediocres”.

Artigo da edição nº2

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