Juanito Maravilha

Madrugada de 2 de Abril de 1992, depois de voltar de um jogo no Santiago Bernabéu para a Taça Uefa, Juan volta a Mérida num Peugeot 405. O condutor é o preparador físico do Mérida e ele lê as notas que tirou durante o jogo. Sonha em ser um grande treinador.
Perto de Toledo, um camião de matricula portuguesa, carregado de troncos de madeira, perde a carga. O condutor não pode evitar os obstáculos e embate contra os troncos. O carro fica totalmente destruído. O condutor é levado para o hospital com ferimentos leves. O co-piloto não resiste.
A notícia corre como polvóra e chega ás redações dos jornais desportivos. “Juanito”, mito do Real Madrid e da selecção espanhol faleceu num acidente de carro. Uma frase é lembrada “Pelo meu caracter tive muitos problemas. Perdi muitas coisas em menos de trinta segundos”. Juanito perdia a vida nessa noite. Em menos de 30 segundos.
O balneário do Real Madrid está destroçado. Valdano está bloqueado: “Era um homem com um problema para por de acordo o seu coração e o seu cérebro. No final ganhava sempre o coração”. Michel e Butragueño, desolados, não querem acreditar na notícia. Chendo está em choque. “Um homem como o Juan, tão grande, não merecia partir assim”. O rival Barça une-se ás condolências. Cruyff junta-se á dor “Era um grande futebolista. Qualidade e carácter, marcou uma época no Real Madrid”.
Em Fuengirola, terra natal, quase 60 mil pessoas juntam-se ao último adeus. Todas as grandes figuras do futebol espanhol juntam-se para uma emotiva despedida a Juanito. O caixão está coberto de bandeiras do Real Madrid, Malaga, Atlético, Burgos e Mérida. O presidente do Real, tenta ser forte para discursar “Dizemos adeus a um artista, um ser humano que muitas vezes se prejudicou a si mesmo”.

Com um carácter bastante peculiar, Juan Gomez, nasceu em 1954. Paradoxalmente começa no Atlético de Madrid aos 15 anos. Os dirigentes do Atlético alojam-no num hotel que ficava em cima dum famoso local de prostituição. Foi uma má ideia. Quando parecia estar destinado a triunfar pelos colchoneros, fractura a tíbia e o perónio e isso precipita o adeus. Passa uma temporada fantástica no Burgos, pese a ter escapado do quartel onde fazia a tropa para poder jogar futebol. Custou-lhe um mês na solitária “Se por jogar futebol me metem na solitária, então peço desculpa e vou para a solitária”.
Acaba por recusar uma oferta milionária do Barcelona, para jogar no Real Madrid. Era o seu sonho. No Bernabéu, não demorou a ganhar o carinho do público. Foi protagonista de noites memoráveis, de “remontadas” impossíveis. Juanito e os seus companheiros faziam do anfiteatro madrileno, um tsunami de emoções.

Autodefinia-se como um “toureiro frustrado”. Não deixava ninguém indiferente. Era uma mistura de raça, fúria e explosão com fora de série. Só era afectado pelas suas constantes mudanças de humor, que tanto mal lhe fizeram á reputação. Tinha um coração XXL e um cérebro do tamanho de um feijão. No relvado era capaz de tudo junto á linha, mas era incapaz de controlar o seu caracter endiabrado, quando perdia a cabeça.
Ganhou 4 ligas, 2 Taças do Rei e 2 Taças UEFA. Internacional e titular pela selecção espanhola foi um incompreendido, como todos os génios.

Em 1979, quando ganhou a Liga, depois de ter sido acusado pelo presidente do Barça de “deixar grávidas em todas as esquinas”, Juanito pegou num microfone e dedicou-lhe a seguinte frase “Esta Liga é para ti, que gostas tanto de mim”. Depois de vencer o processo que lhe pôs, doou o dinheiro. Helenio Herrera, mítico treinador do Barcelona, também teve direito ao seu mau feitio. Juan marca em Camp Nou e diz-lhe “Este é para ti, agora vai para o lar de 3ª idade”. O tempo para lhe pedir desculpas, foi o de entrar no balneários.
A sua paixão pelos touros também lhe custou alguns dissabores. O clube tinha-o proíbido de tourear, por medo a que se lesionasse. Um dia, a caminho de um jogo, Juanito põe um video duma tourada sua no autocarro da equipa. Em frente a jogadores e dirigentes. Custou-lhe uma pesada multa. “É superior a mim, vejo um touro e quero tourear”.

O seu pior momento foi nas meias finais da Taça dos Campeões em 87. Contra o Bayern, pisa a cabeça de Lottar Matthaus, que estava deitado no chão depois de uma entrada de Chendo. Juanito cravou os pitons na cara do alemão em frente a todas as câmaras de televisão. Antes que a UEFA o castigara severamente, pediu um sentido pedido de desculpas “Tenho duas personalidades e hoje saiu o mau, o irracional. Sinto muito. Aqui o único prejudicado sou eu. Maldigo o meu carácter. Tentei domina-lo, mas hoje voltou a sair. Não sei onde me meter”. Dias depois, Matthaus recebia uma capa de toureiro como pedido de desculpas.

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