Gazza: A íngreme estrada do excesso

Olhava pela janela do seu quarto imaginando como teria sido a sua vida sem beber. O seu corpo estava aliviado pelos medicamentos, naquela clinica por onde haviam passado Robbie Williams ou Kate Moss. The Priority era o refugio onde se escondia da imprensa e de uma opinião publica que nunca lhe perdoou ter desperdiçado todo o seu talento. Todo um génio prisioneiro numa garrafa de whisky. Deram-no por morto, tantas vezes quantas ressuscitou, procurava respostas a perguntas difíceis de responder.

Alcoólico e mau paciente, tentava não pensar em demasia. “Não gosto de estar sozinho, porque quando estou sozinho penso e não gosto de pensar muito”. Michael Kaine resumia-o assim “É o homem que mais me faz lembrar Marylin Monroe. Não era a melhor actriz do mundo, mas era uma estrela e por isso podia chegar tarde ás gravações”.

Paul Gascoigne chegou sempre atrasado e tenta ainda hoje escapar á morte. Segundo de quatro irmãos, começou no Newcastle por indicação do inevitável Bobby Robson. A sua infância não foi feliz, problemático e pouco amigo dos estudos, encontrou na Bols a sua melhor amiga. Quando jogava, não pensava e portanto estava fora de sarilhos. Nas camadas inferiores dos magpies brilhou pela sua visao de jogo e pelo passe preciso. Estreou-se em 1985, mas fez-se famoso antes: era o responsável por limpar as botas do mítico Kevin Keegan e claro que arranjou forma de as perder. Deu-se a conhecer assim aos funcionários do clube, que só o perdoavam pelo talento que tinha nos pés. Apesar do seu caracter caótico e problemático – que quase lhe custam a continuidade no Newcastle –  Paul assina logo o seu primeiro contrato profissional e em três anos faz 107 jogos e marca 25 golos. A sua qualidade infinita, a elegância com a bola e a finta fácil cativaram logo os adeptos. Como era possível que aquele miúdo gordinho podia jogar tanto, mesmo com alguns “pneus” que lhe sobravam? Foi nomeado jovem do ano e despertou o interesse do Tottenham, que cometeu a loucura de pagar 2 milhões de libras por ele.

Nos “Spurs” consolidou e evoluiu o seu talento. Na selecção inglesa foi o líder durante o Mundial de 90. Fez parte do onze ideal desse mundial. Gazza vivia na gloria, colaborou numa musica pop do grupo Lindisfarme e teve direito a dois videojogos. Entre golos e borracheiras dizia as suas virtudes “A cerveja, o chocolate e as mulheres. Nesta ordem”.

Stan Syemour, presidente do Newcastle, definiu-o como “George Best sem cérebro”. Best rejeitou a comparação “Gascoigne não me chega nem aos cordões… Da garrafa”. O presidente do Sheffield foi mais longe: “se fosse meu filho, levava duas chapadas e ia para a cama sem comer”. A “chapada” não tardou em chegar. Na Lazio, lesionou-se gravemente no joelho e entre escândalos nunca chegou a demonstrar a sua qualidade.

O destino talvez fosse outro, se Paul não decidisse curar a sua lesão nos bares de Roma: depois de uma violenta discussão, um cliente deixou-o inconsciente com um soco, deitando-o ao chão. Os médicos disseram que com a queda tinha agravado a lesão e dias depois estava no bloco operatório para uma nova cirurgia. O seleccionador inglês da altura opinou sobre o estado de forma de Gaza: “Estou preocupado com a quantidade de álcool que ele consome”. A Lazio, farta de um gordo lesionado, quase coxo e incapaz de recuperar-se, deu-o como dispensado.

Foi então que apareceu o Glasgow Rangers. Na Escócia voltou a aparecer em grande, converteu-se rapidamente no ídolo numero um dos adeptos “gers”. Foi então que redigiu as “Gazza Rules”. “As minhas regras são: eu faço o que quero e quando quero”. Nem mais, nem menos. Durante um clássico com o Celtic (católicos), Gascoigne marcou e lembrou-se de celebrar o golo como se tocasse uma flauta, ao estilo das polémicas manifestações da Orange Order, de cariz anti-católico. O Celtic taxou-o de “anormal número um da Escócia” e os adeptos do Rangers, protestantes, juraram-lhe amor eterno. Esse gesto valeu-lhe ameaças de morte que o “aconselhavam” a abandonar a Escócia. Assim o fez, depois de 30 golos em 74 jogos, voltou á Premier League.

Nada voltou a ser o mesmo. O seu talento deixou-o entre bares e copos. Ainda passou pelo Middlesbrough, Everton e Burnley, mas os seus melhores jogos já os tinha feito.

O DC United, do outro lado do atlântico, foi o próximo destino do seu futebol em fase terminal. Foi aí que fez a primeira desintoxicação, que como é óbvio não funcionou. Também não funcionou na China, depois de ser treinador-jogador do Gansu Tianma. Gazza foi arrastando o final da sua carreira, tinha pavor á resposta á pergunta “Como seria a sua vida sem futebol?”.

Estava condenado a ser esquecido, como um brinquedo partido. Foi aumentando o seu historial de palhaçadas: foi visto uma hora antes do jogo num bar, com o equipamento da selecção e com as chuteiras calçadas; em Itália, depois de ser expulso, cumprimentou um a um todos os jogadores da equipa adversária; cheirou a axila de um árbitro depois do expulsar; causou danos no autocarro do Middlesbrough no valor de 10000 libras etc.

O “The Mirror” qualificou-o perfeitamente: “Há três tipos de pessoas: as corrigíveis e as incorrigíveis. Depois há esse gordinho que joga futebol, mas que já deixou de ser divertido”. Paul tinha agredido a sua esposa brutalmente. Tinha dois dentes partidos, os dedos partidos, o nariz cortado e um olho negro. Sheryl pediu o divórcio depois de ser victima dos excessos machistas de Gascoigne, que sofria de ataques de ansiedade quando não estava sob os efeitos do álcool.

O pior estava para chegar, quando “pendurou as botas” em 2004, conheceu a resposta á famosa pergunta. A sua dependência da garrafa aumentou absurdamente. Paul não parava de beber. Os médicos diagnosticaram-lhe um transtorno bipolar, era obsessivo-compulsivo, bulímico e alcoólico. Aconselharam-no a tratar o seu problema, mas como é óbvio, ele tratou de o agravar. Fez-se famoso nos bares, onde teve uma célebre luta com o cantor dos Oasis, Liam Gallagher.

De pneumonia em pneumonia, até uma ulcera no estômago, Gazza chegou ao limite. Estava farto da vida, queria morrer. Diz-se que chegou a pedir uma faca num hotel para cortar as veias.

Acabou como um mendigo, até que o sindicato dos jogadores o ajudou. Convertido num resíduo da sociedade, Paul era uma vitima do alcool mas também da medicação: “Quando ia ao psiquiatra só me perguntavam quem me receitou aqueles comprimidos e receitavam-me outros.” Era o alcoólico mais famoso de Inglaterra e estava farto de médicos, clínicas, diagnósticos e hospitais. “Em alguns centros só gostam de te dar títulos. Houve uma altura em que tinha mais que Muhamad Ali: és bipolar, obsessivo-compulsivo… O que realmente sou é um alcoolico e não preciso mais de comprimidos”.

Tentou tratar-se, fracassou várias vezes e a sua luta com a garrafa continua. Do talento gordinho que os seus joelhos mal podiam, perdeu-se o rasto. Genial e indomável combate os seus demónios com um charuto cubano, num jogo de futebol com os vizinhos ou pregando uma ou outra partida (sem maldade) no bairro. Confessa que é um mau paciente “Só sei que não vou voltar a beber nos próximos dez minutos” e é incapaz de prometer que não vai voltar a beber “Se acho que não vou beber, acabo por beber.”

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