Como chega a Alemanha ao Euro 2012

Detentora do mais bem apetrechado espólio europeu, a Selecção Alemã de Futebol dispensa apresentações, o que até dá jeito na medida em que se fosse preciso fazer um cartão-de-visita da equipa alemã este teria de ser em forma de desdobrável, tal a quantidade de informação que nele ira de constar.

Para quem não sabe, a Alemanha conta com três vitórias no Campeonato do Mundo, outras tantas no Campeonato da Europa e ainda quatro medalhas nos Jogos Olímpicos: uma de ouro, outra de prata e duas de bronze. E para além dos êxitos falta falar das vezes que lhes ficou o sucesso à porta. Pois bem, os germânicos foram finalistas vencidos em quatro ocasiões no Mundial de Futebol e somam mais cinco terceiros lugares. No Europeu a história é quase a mesma: três finais perdidas e uma derrota nas meias-finais. Para além disso somam-se ainda duas participações na Taça das Confederações, uma das quais em território próprio quando se classificou no terceiro posto. Feitas as contas, é raro encontrar uma prestação alemã numa fase final que tenha desiludido. 

O estilo do seu futebol foi-se perpetuado ao longo de várias gerações que apresentaram sempre as mesmas características genéticas: um jogo de controlo de bola e de controlo emocional. Muitas vezes sem encantar a ‘Mannschaft’ sempre foi dominadora e teve sempre o condão de decidir em seu favor nos momentos mais dramáticos do jogo, daí ter surgido a velha máxima que diz que: “o futebol é um jogo simples – 22 homens perseguem uma bola durante 90 minutos… e, no final, a Alemanha ganha sempre”. Quem quer que fale da Alemanha pode garantir que a sua maior arma é a cabeça. Aí reside o cerne da vitalidade alemã, não apenas porque as suas cabeças estão dotadas de uma frieza e força mental arrepiantes, mas também porque tecnicamente a Alemanha teve e tem dos melhores executantes da história no jogo aéreo.

O seu estilo físico e pouco técnico foi sempre capaz de fazer frente aos mais temíveis adversários, isto porque, no futebol como na vida, os alemães são mais adeptos da organização e da eficácia do que dos efeitos artísticos. Todavia ninguém pode dizer que alguma vez praticaram um mau futebol devido à sua pragmática e impetuosidade. Para a história ficaram figuras de grande categoria como Gerd Müller, Jupp Heynckes, Franz Beckenbauer, Karl-Heinz Rummenigge, Rudi Völler, Sepp Maier, Lothar Matthäus, Jürgen Klinsmann, Oliver Khan e Michael Ballack.

Hoje, porém, os protagonistas da história são outros. A verdade é que, depois de dois europeus, em 2000 e 2004 em que não conseguiram vencer nenhum dos jogos na fase de grupos e pelo meio um mundial onde a ‘Mannschaft’ contou com a inspiração de Oliver Kahn na baliza para chegar à final, sentiu-se uma necessidade de renovar a equipa para o Mundial que iam receber em 2006. E logo em 2005 sentiu-se uma lufada de ar fresco na equipa alemã que disputava a Taça das Confederações. Era um futebol buliçoso e irreverente dos jovens alemães que prometiam um nível de espetacularidade bem diferente da morbidez táctica a que tinham habituado o planeta do futebol. Era uma equipa tecnicista e rápida que denotava uma característica invulgar: uma precisão acima da média nos remates de meia-distância. Os torpedos dos médios alemães e as transições rápidas levaram a equipa ao terceiro posto dessa competição, posição que viriam a repetir no Campeonato do Mundo do ano seguinte.

Nos anos que estavam para vir a tendência foi ganhando força. A Alemanha desenvolvia um futebol cada vez mais arrebatador, sem que isso tivesse influência negativa nos resultados. A Jürgen Klinsmann sucedeu o adjunto Joachim Löw que deu seguimento à dinâmica ofensiva do 4-2-3-1 e conseguiu dotar a equipa de uma maior estabilidade defensiva. As pedras base da equipa como Philip Lahm, Mertesacker, Bastien Schweinsteiger, Miroslav Klose e Lucas Podolski foram importantes para o equilíbrio de resultados, assim como a entrada de novos jogadores que, a cada fase final, foram tornando as opções do banco cada vez mais fortes.

Para este certame que se aproxima, a máquina está mais afinada que nunca e aumentam as possibilidades desta geração conseguir, finalmente, atingir a conquista do ceptro europeu depois de lhe terem ficado muito próximos em 2008. Na fase de qualificação a Alemanha arrecadou uns impressionantes 30 pontos, resultado de dez vitórias no mesmo número de jogos, melhor registo da qualificação. O passeio triunfal foi coroado com 34 golos marcados e apenas 7 sofridos, sendo a diferença de golos superada somente pela Holanda que marcou mais três mas sofreu mais um.

Integrada num grupo difícil, com Portugal e Holanda como principais ameaças e uma Dinamarca que suscita algumas cautelas, a Alemanha é, ainda assim, considerada favorita a vencer o ‘grupo da morte’ e encabeça também a lista de equipas mais capazes de destronar a Espanha do título europeu.

Para tal muito podem contribuir as novas estrelas provenientes da cada vez mais competitiva Budesliga. Mesut Özil é uma das novas bandeiras da Alemanha, apesar de ser de origem turca. O médio-criativo, transferido do Werder Bremen para o Real Madrid há duas épocas, é o pensador de jogo germânico, e todo futebol da Alemanha orbita em torno de si. Atrás de Özil há Sami Khedira, seu colega no Real Madrid e Toni Kroos, jovem médio que se tem vindo a afirmar no Bayern de Munique e ainda as grandes promessas Marco Reus e Gotze. Depois, há o letal Mario Gomes que pode fazer dupla na frente ou substituir Klose sem que se note uma quebra de rendimento ofensivo. Para mais, a ‘Mannschaft’ conta com uma dupla de centrais composta por Hummels, bicampeão alemão pelo Dortmund que surge em grande forma ao lado de Badstuber, vice-campeão europeu de clubes pelo Bayern de Munique, parelha que, apesar de alta, é de rins flexíveis. A juntar a estas peças não falta um bom guarda-redes: Manuel Neuer, que pôs termo na instabilidade na baliza alemã que se instalou no período pós-Kahn.

Agora mais entrosada, a equipa alemã mostra argumentos para um futebol de passes curtos, combinações e posse de bola, ao invés do que vinha produzindo nas edições anteriores em que apostava no contra-golpe. Se há alguma coisa que se pode dizer desta Alemanha é que entusiasma. Apesar de não ter de encetar uma grande viagem para disputar o torneio espera-se dela que vá bem longe na prova, pois se assim não for, provará todo o povo alemão o sabor amargo da decepção.

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