Entrevista a Pedro Marques Lopes

Pedro Marques Lopes, comentador político de vários órgãos de comunicação social como o Diário de Notícias e a SIC Notícias, permitiu-se a dar voz ao JORNAL DEZ envergando o discurso futebolístico sempre num registo incisivo, balanceado entre a sensatez e a tenacidade que o caracterizam. A sua preferência clubística não a esconde, sem nunca deixar todavia de conter o fervor pessoal na hora de racionalizar as respostas aos assuntos mais delicados. A voz de um adepto analítico numa entrevista de nota DEZ.

JD Em 1986, Maradona marca um golo com a mão aos ingleses, em plena Guerra das Malvinas. É possível fazer política no relvado?

PML – No relvado, no balneário, na bancada, nas contratações. É possível fazer política em todo lado e fundamentalmente é possível tirar proveitos políticos de quase tudo. Num jogo que mexe com tantas coisas é impossível a politica não interferir.

Politicamente o que representa para si ser um adepto do F.C Porto? O que tem de especial o clube?

– Politicamente não representa rigorosamente nada. De especial tem ser o meu clube, a minha primeira paixão e a única com que tenho a certeza de ir morrer. O FC Porto faz parte de mim, daquilo que eu sou, daquilo que me define. Sinto que quando o Porto joga sou eu também que estou em campo, e isso não sinto em relação a mais nada. Como exemplo extremo, posso dizer que quando um filho meu vence, sinto uma profunda alegria mas a vitória é dele; quando o Porto ganha ou perde sou eu também que ganho ou perco.

Acredita no modelo da Regionalização para o País? Acha que o futebol ganhará com isso? 

– Os modelos de regionalização que foram propostos não beneficiariam o país. Claro está que é fundamental uma maior integração de políticas locais. O que não me parece é que passe pela divisão do país em regiões com tudo o que isso implica. O futebol perde sempre que é utilizado para fins políticos, e a política em nada beneficia o futebol (a verdadeira política, não a politiquice). O poder político deve apoiar o futebol e o desporto em geral através de políticas gerais como a aposta em recintos desportivos e na formação mas não deve interferir no desporto profissional. Temo que, num processo de regionalização, os clubes se confundiriam com as regiões e transformar-se-iam em instrumentos políticos. Seria ainda pior do que certas situações que conhecemos ao nível de municípios.

Como vê a situação portuguesa? Acha que o pessimismo feroz em que estamos se está a repercutir no futebol?

– Não, não acho. No caso da selecção, por exemplo, até acho que há demasiado optimismo. Também penso que, face à situação do país e ao caminho que estamos a prosseguir, não há demasiado pessimismo, há até uma razoável inconsciência.

Qual é a sua primeira memória do futebol?

– Um ‘Oriental – FC Porto’ em Marvila. Tenho outras, mas são memórias contadas, não tenho a certeza de terem sido vividas.

Como alguém ligado ao jornalismo, como amante de futebol e como leitor. Está satisfeito com o jornalismo desportivo português actual?

– Não, não estou. Muito longe disso. O jornalismo desportivo, em muitas situações, desistiu de ser jornalismo como actividade independente, fora da lógica do mercado e da maioria.

Considera que o jornalismo desportivo caiu em determinadas rotinas e tendências? Quais?
– Um facto não deixa de ser um facto mesmo se 99% da população acha que não é. Isso não é jornalismo. Muito do jornalismo desportivo, por razões económicas admito, dá relevância a clubes e personagens não pelos seus resultados e feitos mas por terem mais adeptos, chega-se mesmo a distorcer a realidade para agradar a esses clubes e adeptos.

O que se devia fazer diferente?

– Basta fazer jornalismo, ser isento e independente. Uma coisa é jornalismo, outra opinião.

Vislumbra algum tipo de preferência em relação a determinados temas e clubes por parte dos jornais desportivos?

– Claro que sim. Basta ler o jornal ‘A Bola’. A linha editorial é evidentemente pró-Benfica. Chega a ser escandaloso. Nunca me vou esquecer de que quando o F.C Porto foi à Alemanha ganhar 5-0 ao Werder Bremen, então campeão germânico [n.d.r Liga dos Campeões 93/94]. O feito teve um quadradinho na primeira página, enquanto o empate do Benfica com o Bayer 04 Leverkusen [n.d.r. 4-4 para a Taça das Taças] ocupava a primeira página toda.

A forma como é tratada a informação dos jornais desportivos difere em alguma coisa dos jornais generalistas?

– Nos temas desportivos, os jornais generalistas informam mais e opinam menos. Digamos, como está agora na moda dizer, há menos jornalismo interpretativo.

– Na sua opinião a classificação da Liga corresponde àquilo que cada clube produziu ao longo da época?

– Sim. Os clubes grandes são beneficiados pelas arbitragens quando jogam com clubes mais pequenos? Acho que sim. Há diferença no tratamento entre os três grandes? Claro que não. De toda a forma, quem ganha o campeonato é sempre porque foi melhor.

– O que lhe parece o alargamento? Dever-se-ia realmente aumentar ou diminuir os clubes em competição na I Liga?

– A Liga está muito bem com 16 clubes. Aumentar é um disparate brutal: não temos nem mercado, nem dinheiro para isso. Reduzir muito seria também um erro, é fundamental termos uma boa representação de clubes e se estes não estão na primeira divisão vão-se afundando e definhando, tornando o nosso futebol ainda mais macrocéfalo. E nem pensar em ‘play-offs’ e quatro voltas e disparates do género: não se deve banalizar os ‘derbys’, por exemplo.

Que Liga teremos para o ano? Que espera do Porto e dos seus rivais?

– Vamos ter uma boa Liga. Infelizmente, e isso é uma tendência europeia, confinada em termos de luta pelo título a apenas dois clubes. Do FC Porto espero sempre que ganhe, dos outros que dêem uma boa réplica, mas que percam.

– Acha que as equipas do meio da tabela do campeonato português deviam ser mais ambiciosas seguindo, por exemplo, o modelo do Sporting de Braga? Poderíamos ter mais equipas a lutar pelo título ou, pelo menos, pelos lugares de acesso às competições europeias?
– A tendência é a contrária. A Liga dos Campeões e as verbas envolvidas contribuem para que o fosso entre as que jogam essa competição e as outras se aprofunde. O campeonato português será cada vez mais um embate entre FC Porto e Benfica. É evidente que com a melhoria da gestão e o reforço da já excelente capacidade de captação de futebolistas que os clubes portugueses demonstram, é provável que a qualidade melhore e que exemplos como o do Sp. Braga aconteçam mais vezes. Não acredito, porém, que consigam lutar sustentadamente pelo título. Pelas competições europeias penso que sim, vai existir mais competição.

Que motivos encontra para a parca média de audiências da I Liga tendo em conta que há uns 20 anos atrás os estádios estavam sempre cheios?

– Francamente, a única razão que encontro é as pessoas estarem a passar por enormes dificuldades. O nosso futebol, ao contrário do que dizem os paladinos da desgraça, é bom, é competitivo e tem grandes jogadores e equipas. Os campos belgas, holandeses, escoceses, franceses estão sempre cheios e o nosso futebol é muitíssimo melhor. Mesmo o futebol italiano, neste momento, é tão bom como o nosso apesar de terem autênticos colossos como os clubes de Milão e Turim.  A desculpa da televisão é ridícula, há transmissões televisivas em todo o lado.

– Encontra alguma razão para a travessia no deserto das outras equipas portuenses que nos habituámos a ver na I Liga como Salgueiros, Boavista e Leça da Palmeira?

– Erros profundos de gestão, deslumbramento, pessoas que se aproveitam do futebol para benefício próprio, pouca força e disponibilidade das massas associativas.

– Nos últimos 30 anos o Sporting foi campeão nacional somente por três vezes. Que factores encontra para esta súbita queda leonina? Prevê um regresso do Sporting aos tempos áureos ou uma queda ainda mais acentuada?

– Infelizmente para o futebol português, o Sporting vai ter uma queda ainda mais acentuada. Há vários factores a ter em conta: péssima gestão desportiva, má gestão financeira, instabilidade directiva, gente a dirigir o clube cujo conhecimento da indústria do futebol é nula, muita gente a querer mandar. O Sporting foi vítima do facto de estar numa fase negativa quando a Liga dos Campeões começou a distribuir milhões e assim a contribuir para o cavar do fosso entre os que beneficiam disso e dos outros. Mas pior foram as sucessivas direcções, na ânsia de quererem ganhar a todo custo, terem enveredado por uma política de contratações suicida que não resultou e que hipotecou de forma provavelmente irreversível o futuro próximo do clube.
A constante patética desculpabilização com os árbitros e outras fantasias ajudou muito para que se instalasse um clima derrotista que é terrível para qualquer instituição.

– Já pensou em ser dirigente desportivo?

Nunca.

Qual o líder mais carismático que conheceu? E no futebol?

– Mário Soares e Pinto da Costa.

O que pode um empresário aprender no futebol? 

– O valor do trabalho, da organização, do método, da importância do grupo e de como a motivação pode fazer dum perna-de-pau um grande jogador. Mas isso aprende-se no futebol e em muitos outros sítios.

Que livro recomendaria a alguém do mundo do futebol?

– ‘Selvagens e Sentimentais’ de Javier Marias. ‘Febre no Estádio’ de Nick Hornby. ‘Quando é dia de Futebol’ por Carlos Drummond de Andrade. ‘Maracanã Adeus’ do Edilberto Coutinho. ‘Futebol sol e sombra’ de Eduardo Galleano. E alguns mais…

Fala-se que o presidente da UEFA Michel Platini, pretende acabar com a Liga Europa e aumentar o número de equipas que enforma a Liga dos Campeões? Isto faz sentido para si?
– Faz sentido em termos do futebol-indústria, permitirá mais receitas a alguns clubes. A diferença entre o que se ganha na Liga Europa e na Liga dos Campeões é assombroso.
Contribuirá, porém, para que se acentue a diferença entre os clubes de países pobres e ricos (futebolisticamente falando). O grande objectivo do Sr. Platini é, estou convencido, fazer uma espécie de NBA do futebol. O alargamento da Liga dos Campeões e o fim da Liga Europa visa fazer crescer o interesse pela Liga dos Campeões e canalizar as receitas todas para essa competição tirando o peso a todas as outras, sobretudo aos campeonatos nacionais. Como espectador e adepto dum clube grande até me seria simpático, mas esse caminho destruirá o futebol como ele é: muito mais que um desporto de massas. É impensável para um adepto dum clube que deixassem de existir descidas de divisão ou, pior ainda, os campeonatos nacionais fossem uma espécie de campeonatos de reservas. O adepto dum clube de futebol não vai aos jogos apenas pelo desporto, a sua relação vai muito para além disso.

O que espera das equipas portuguesas e quem vê como principal candidato à conquista da ‘Champions’ do ano que vem?

– Espero que o FC Porto faça a sua obrigação e passe a fase de grupos, isso é o mínimo. Depois, logo se vê. O Porto é um dos melhores clubes da Europa, não fará mais que a sua obrigação. Pode ser que o Benfica faça um brilharete e passe a fase de grupos mas acho difícil. O Benfica é apenas uma equipa, convenhamos, para consumo doméstico. É claramente o que os resultados dos últimos anos têm dito. O Braga, no próximo ano, já não terá o efeito-surpresa (como já aconteceu este ano), e não tem plantel para uma Liga dos Campeões. Tenho pena de o dizer, mas é o que eu acho. O Real Madrid é o principal candidato a vencer para o ano (para desgosto meu)…

Sente que as equipas portuguesas são prejudicadas pelas arbitragens nas competições europeias?

– Não, até acho que no último ano foram muito beneficiadas. Mas a conversa sobre arbitragens, muito francamente, não me interessa. Acho muito mais problemática a questão do ‘fair-play’ financeiro, da tentativa de acabar com os campeonatos nacionais como os conhecemos, das apostas, da lavagem de dinheiro via futebol. Mas do que gosto mesmo é da bola a rolar, o resto é converseta.

Está entusiasmado com o Euro 2012? O que esperar de Portugal? Quem lhe parece favorito a ganhar o certame?

– Não sou fã de selecções, logo o meu entusiasmo é moderado. Vou ver os jogos e acompanhar o evento, claro está, mas como apreciador do jogo e não como adepto. Não estou nada optimista em relação à selecção portuguesa. O coração duma equipa é o meio-campo, e o da selecção não é, digamos, excelente. A equipa tem um bom guarda-redes; um excelente central e um muito bom defesa-esquerdo; um bom médio e dois razoáveis; dois fabulosos avançados e um muito bom ponta de lança – infelizmente, o ponta-de-lança não vai jogar. Não chega para fazer grandes resultados. A Espanha, se estiver para aí virada, ganha o Europeu com uma perna às costas.

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