Manolo Preciado

Manolo foi um defesa central típico dos anos 70: feio, forte e discreto. Disputou mil e uma batalhas, naquele tempo em que o futebol ainda não tinha vendido a alma ao circo mediático. Lutou em Santander, Linares, Mallorca, Vitoria, Orense e Torrelavega, a ultima estação antes de ter pendurado as botas sem fama e sem uma fortuna na conta bancária. Ganhou bastantes amigos no mundo do futebol, da mesma forma que os ganhou enquanto estudante de medicina, de vendedor de conservas ou de planos de reformas.
Purificación, a sua esposa, morreu em 2002 vitima de um cancro. Dois anos mais tarde, perdeu o seu filho Raúl, de apenas 15 anos, num acidente de mota. “Quando perdi a minha mulher e o meu filho tinha duas opções: atirar-me de uma ponte ou tentar seguir em frente. Decidi a segunda opção.” Consciente de que a vida é madrasta e que nos parte o coração, Manolo decidiu avançar enquanto ia aguentando os fortes golpes do destino, sem sentir nenhuma pena dele mesmo. Assim foi quando o morreu o seu pai de forma ainda mais trágica, quando escorregou ao empurrar um carro sendo atropelado depois.
O futebol foi o seu refugio. Encontrou uma nova família nos balneários. O cheiro a suor das camisolas, os bancos incómodos e o som dos golos ajudaram-no a superar a dor da perda dos seus ente queridos. Foi amigo e professor a tempo inteiro quando se tratava de dar carinho aos seus jogadores. Tanto os titulares, quanto os que se sentavam no banco. Cultivou uma amizade profunda com todos eles, foram o substituto perfeito para o ajudar a superar tantos golpes sem misericórdia que a vida lhe deu. O futebol concedeu-lhe dureza para superar tanto sofrimento.
O homem que subiu de divisão a cinco equipas, a pessoa afável que treinava como vivia, sempre foi duro com os problemas e doce com as pessoas. Nunca se rendeu á adversidade dum desporto convertido num negocio impessoal. Sempre antepôs a entrega e o sacrifício ao dinheiro, menos banalidade e mais humildade, menos milhões e mais união. Na aldeia global dos golos e na selva do dinheiro, Preciado nunca se ajoelhou, mesmo que isso lhe custasse o exílio, como aconteceu no Racing de Santander ás ordens e caprichos de um milionário ucraniano. Beijou o escudo do seu clube do coração e seguiu em frente. Um capitulo semelhante aconteceu no Sporting de Gijon, uma equipa recém subida de divisão, que jogava um bom futebol e onde os donos sem escrúpulos o decidiram despedir sem motivos aparentes. Adeptos de Champions e dirigentes de distrital. Preferiu não guardar rancor a quem o tentou derrubar, para Manolin a honra sempre esteve por cima do dinheiro.
A sua filosofia de vida foi a sua alegria, a amizade o motor que o fazia seguir em frente e a honra a sua identidade. Era assim, um homem acessível, conversador entusiasmaste e um marido que tinha reencontrado a felicidade. Manolo sempre ganhou os jogos contra a vida, mesmo que o marcador fosse desfavorável e o “jogo” trágico e sem esperança. Sempre foi assim até que o Villareal o decidiu contratar para tentar emergir o “submarino amarelo” das águas profundas da segunda divisão. Um dia depois, chegou esse jogo que não podia ganhar, partiu num inesperado e fulminante enfarte.
Espanha e Astúrias estão de luto, partiu um cidadão admirado e amado pela sua terra. A família do futebol também chora a sua morte. Dizem que os passos da morte são silenciosos, porque se aproximam sem nos dar-mos conta e nos roubam aqueles de quem mais gostamos. Neste caso é o contrário, a sua morte faz-nos recordar para sempre um homem bom, a sua lenda continuará viva. Que o digam os jogadores que nunca esquecerão os seus abraços ou o Molinon que cantará o seu nome como de um grito de guerra do seu legado se tratasse.
A sua morte não o mitifica, porque ele já era um mito. Tampouco lhe trará mais elogios, porque quem o conhecia sabia que para o definir era preciso mais de “meia palavra”. Os adeptos do Gijon e do Villareal sofrem uma dura perda e de certeza que a cada 7 de Junho lhe dedicarão uma lágrima: só uma, Preciado não permitiria mais.

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