Escândalos em Itália: Fenómeno sazonal ou máfia instalada?

Pela segunda vez num espaço curto de seis anos, o futebol italiano está a ser abalado por um escândalo de corrupção e falsificação de resultados. Mais um terramoto numa competição já de si fragilizada pelos problemas dos últimos anos em manter credibilidade. Mas o facto é que, num país sobejamente conhecido pelas ligações da(s) máfia(s) a tudo o que dê lucro, o futebol tem sido dos principais visados pelas autoridades e a investigação sobre tudo o que rodeia o jogo já se arrasta desde 1980.

Com efeito, nesse ano surge o “Totonero”. Vários jogadores e clubes colaboravam numa rede de apostas clandestina de resultados falseados, tendo sido apanhados pela “Guardia di Finanza” italiana. Vários clubes da Série A e B foram implicados, bem como vários jogadores – destacam-se do lote Milan, Lazio e o jogador Paolo Rossi. Ambos os clubes foram relegados para a Serie B (segunda divisão italiana) e o avançado foi castigado com três anos de suspensão efectiva (mais tarde reduzidos para dois anos, mesmo a tempo de o integrar na “Squadra Azzurra” do Mundial de 1982…). Como curiosidade, refira-se que foi a primeira vez que o colosso AC Milan desceu à Serie B e que a Juventus foi, na altura, investigada e ilibada devido a um jogo com o Bologna (já em 2012, jogadores da altura confirmaram que o resultado desse jogo foi efectivamente combinado também).

Em 1986, Udinese, Cagliari e Lazio (só para citar as mais conhecidas) são indiciadas devido a mais um escândalo de apostas em resultados viciados. Esta nova diligência das autoridades italianas, chamado “Totonero Bis”, não teve tantas repercussões mediáticas fora de Itália por não envolver nenhum dos três gigantes. A Lazio foi, tal como o Cagliari, relegada para a Serie B (na punição original iria para a Serie C1 – actual Lega Pro Prima Divisione), tendo a Udinese ficado na Serie A após recurso, limitando-se a começar o campeonato com nove pontos negativos. Novamente houve jogadores envolvidos também e punições elevadas para cada um deles.

Depois destes seis anos conturbados, Itália organizou o Mundial de selecções em 1990, o campeonato italiano impôs-se como um dos mais competitivos do Mundo e teve vários campeões europeus (Milan e Juventus venceram, até 2000, vários troféus internacionais) e granjeou admiradores em todo o Mundo. Afinal, parecia que teriam sido casos isolados, que não haveria problemas de fundo no futebol em Itália.

Infelizmente, em 2006 o caos emergiu novamente na esfera do futebol italiano (o “Calciopoli”, o “Moggiopoli” ou, como ficou mais conhecido cá em Portugal, o “Calciocaos”): Juventus, Milan, Fiorentina, Lazio (surpreendido, caro leitor?) e Reggina foram as equipas de nomeada apanhadas em escutas que provam mais uma combinação de resultados na Serie A com participação directa da arbitragem italiana. O director geral da Juventus, Luciano Moggi, por exemplo, foi gravado a combinar com altos responsáveis pela arbitragem quem deveria apitar os jogos da sua equipa (Massimo de Santis, mais reputado árbitro italiano,foi até afastado do Mundial de 2006). A Juventus (campeã italiana nessa época) foi relegada para a Serie B e perdeu os títulos dessa época e da anterior, enquanto Milan, Fiorentina e Lazio começaram a época seguinte com uma dedução nos pontos. Desta vez não houve qualquer jogador castigado, visto que a situação apenas envolveu as altas cúpulas do dirigismo do Calcio – e o Inter, o outro grande italiano, foi o grande beneficiado, ao ficar com o  título da Juventus dessa época e começando aí um reinado apenas interrompido pelo Milan em 2011. Todo este escândalo foi amplamente noticiado em todo o Mundo e deu início ao declínio da importância do campeonato italiano no panorama europeu.

Agora, 2012. O “Calcio scommesse” (“aposta futebolística”, em tradução livre) lança novamente a mancha sobre resultados viciados no futebol italiano e começa, na realidade, em 2011, com uma investigação sobre apostas fraudulentas em jogos da Serie B, Lega Pro Prima Divisione e Lega Pro Seconda Divisione após denúncia da Cremonese após suspeita sobre um dos seus jogadores -.o guarda-redes Marco Paoloni. O atleta foi acusado de ser o grande gestor de todo este processo de viciação de resultados, incluindo drogar os seus companheiros de equipa para controlar um jogo, bem como ser o bookie de várias apostas ilegais. Vários outros jogadores no activo (incluindo Doni, capitão da Atalanta e Vittorio Micolucci e Vicenzo Sommese, ambos do Ascoli) foram implicados e estão agora ou sob prisão domiciliária ou efectiva. De entre os implicados, de realçar Giuseppe Signori (antigo avançado e figura da Lazio), que é dos mais conhecidos e é suspeito de colocar apostas ilegais nestes jogos.

Já no final de 2011, novas investigações coordenadas em Cremona levantaram o véu de uma complexa rede de apostas que envolve redes criminosas em Singapura, no Leste da Europa e, naturalmente, na própria Itália. Toda esta situação teve desenvolvimentos notáveis em Maio de 2012, com a prisão de Stefano Mauri (capitão da Lazio), Omar Milanetto (antigo capitão do Genova) e mais alguns jogadores no activo. Mais figuras foram implicadas, como o actual treinador da Juventus Antonio Conte (por suspeitas durante a sua estadia em Siena), Sculli (avançado do Genova), Kaladze (antigo jogador do Milan) e Domenico Criscito, um dos indiscutíveis da Selecção italiana (e entretanto afastado dos 23 seleccionados para o Euro 2012).

O próprio primeiro-ministro italiano, Mario Monti, já reagiu sobre o assunto, revelando que seria a favor de congelar a competição durante dois anos, e o seleccionador italiano Prandelli revelou também, antes do início do Euro 2012, que se desejassem que a Itália fosse afastada da competição ele não teria problemas com isso.

Quem sofre com tudo isto é, no aspecto futebolístico, o Calcio. Cada vez menos patrocinadores, cada vez menos dinheiro, cada vez menos jogadores de qualidade, cada vez mais publicidade negativa para o campeonato que (ainda) figura nos três maiores da Europa – mas talvez apenas por estatuto. A Liga que era, até há bem pouco tempo, a referência em termos de futebol táctico, de equipas defensivamente fortíssimas com foras-de-série no meio campo e no ataque, é hoje em dia um campeonato para o qual grande parte dos jogadores olha com alguma desconfiança. A situação financeira dos clubes tem vindo a degradar-se, o que leva a que os clubes tenham cada vez menos capacidade de contratar os melhores jogadores do Mundo. 2012 pode ser um ano fatídico para o futebol italiano, e De Rossi, jogador da Squadra Azzurra, referiu ainda antes do Europeu e durante o estágio da selecção italiana, temer pela imagem do futebol italiano, referindo que “este (escândalo) é pior que o de 2006”.

Curiosamente (e excluindo 1986), a “Squadra Azzurra” tem conseguido excelentes resultados nos anos destes escândalos: Campeã do Mundo em 1982 (com Rossi em primeiríssimo plano e a ser a grande figura do Mundial e Campeã do Mundo em 2006, na ressaca do “Calciocaos”. Estamos em 2012 e há Campeonato da Europa…

Tiago Soares

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