Questão de Timing

Em pleno dia de decisões na campanha Lusa para o Europeu 2012, um jornal desportivo português decidiu dar destaque na sua capa de domingo à entrevista exclusiva de Jorge Jesus, em detrimento de uma capa inspiradora, nacionalista e motivadora de apoio a seleção nacional rumo ao quartos-de-final. Penso que esta atitude, retrata um pouco a falta de nacionalismo que paira sobre o nosso país. Que raio de vício de menosprezar o que é nacional. Será que vamos viver eternamente na teia arcaica, que tende a valoriza o que é nacional, apenas, quando estes são valorizados além-fronteiras? O futebol nacional, necessita de uma injeção geral de união e cooperativismo. Chegou altura de remarmos juntos na mesma direção. Como amante incalculável da modalidade, é um prazer para mim ter oportunidade de ler, aprender e questionar os pensamentos partilhados pelos treinadores nacionais em entrevistas exclusivas, contudo é necessário TIMING e respeito.

Em relação a entrevista de Jorge Jesus, gostaria de relembrar os caros leitores, que na primeira edição do Jornal Dez, a minha crónica debruçou-se perante a problemática pela qual o Benfica não tem conseguido obter o sucesso durante as duas ultimas temporadas. Pois bem, em vésperas do arranque da nova pré-temporada, Jorge Jesus decidiu conceder uma entrevista, na qual mencionou e justificou que não conquistou nenhum troféu de relevo, pois pensava que poderia ganhar as duas competições mais importantes: Champions League e o campeonato nacional:

«Optei por dar mais dias de descanso para a Champions do que para o campeonato. Isso foi algo que se hoje voltasse a acontecer não faria, porque já percebi que os sócios do Benfica querem é ser campeões nacionais. Isso é a prioridade, a Liga dos Campeões é importante mas não valorizam tanto como ser campeão nacional, e pensava eu que os sócios do Benfica, como há muito tempo não chegavam lá, queriam ir longe na Champions».

Isto demonstra, do meu ponto de vista, o seguinte:

1. Os objetivos do Benfica não estavam claramente definidos antes do início da temporada. Uma equipa de futebol é como uma empresa. A caminhada rumo ao sucesso passa pela definição de objetivos lógicos e coerentes que possam ser alcançados/atingíveis. Os objetivos de uma equipa, um clube, uma empresa devem estar de acordo com os meios disponíveis. E devem ser claros para toda a gente. Podem ser revistos durante a «viagem», claro. Mas têm de estar definidos quando se prepara a temporada.

2. Nesta entrevista é possível constatar demasiada egocentricidade por parte do técnico encarnado. Ao longo dos diversos extratos é possível constatar que no seio do clube … Ele sentia, Ele decidia, Ele pensava, Ele sonhava e … talvez ele não ouvia. Como seres humanos, todos nos erramos, e consequentemente devemos de estar sempre disponíveis a ouvir os alertas dos outros. Um clube não pode ser só o treinador. Muito menos quando se trata de definir os objetivos da temporada. Isso é algo que deve envolver os dirigentes, o treinador e os jogadores e sobretudo a equipa técnica que nos rodeia. Não me parece razoável que Jesus justifique que deu demasiados dias de descanso a equipa para a champions. Hoje em dia o futebol é um desporto híper exigente, que apresenta um congestionamento de calendarização impressionante e consequentemente implica que os treinadores abram os seus horizontes e usem a ciência como um auxílio capaz de manter as suas equipas frescas e aptas em todas as frentes. O Benfica é uma equipa de top Mundial que possui um conjunto invejável de infra estruturas de apoio ao seu departamento de futebol profissional, onde se destaca um super desenvolvido e moderno laboratório de ciência desportiva onde os jogadores encarnados são monitorizados ao segundo assim como todas as cargas e intensidades de treino são controladas meticulosamente. O Benfica Lab possui um luxuoso leque de profissionais com meios capazes de acelerar o processo de recuperação de fadiga dos atletas através de circuitos de banho de contraste de água quente e fria, uso de calcas de compressão pós jogo, recurso a tratamentos de hidroterapia, massagens localizadas, ingestão de bebidas ricas em eletrólitos, dietas pormenorizadas, entre outras (…). Pois bem face a este cenário, parece um bocado descontextualizado que Jorge Jesus se queixe de fadiga. Através destes meios e através dos conselhos e sugestões fornecidos pelos técnicos de ciência desportiva do emblema da Luz, Jorge Jesus pode saber exatamente quando é necessário conceder uma folga a determinado jogador ou equipa, sem no entanto menosprezar a ambição em qualquer uma das competições. Cenário complicado parece ser o que se vive nas equipas da 1º e 2º divisão inglesa onde as equipas e os seus jogadores são obrigados a efetuar cerca de 60-70 jogos por época e onde muitos dos encontros são disputados com menos de 48h de recuperação (caso do boxing day e época da pascoa).

Num estudo elaborado por Raymond Verheijen, conceituado consultor desportivo na elite do futebol mundial, o autor analisou o impacto que a disputa de um jogo nas competições europeias (a meio da semana) pode ter na performance da equipa durante o jogo seguinte, a contar para as competições internas (liga). Pois bem, Raymond concluiu que as equipas Portuguesas são as equipas menos afetadas pela sobrecarga de jogos causadas pelas competições europeias, pois a Federação Portuguesa de Futebol é a única Federação na Europa que permite que as equipas alterem regularmente os seus calendários em função do jogo disputado para as competições europeias a meio da semana. Por exemplo: se o Benfica jogar para a champions a uma quarta-feira, o clube pode alterar o jogo para o campeonato, inicialmente previsto para Sabádo, para o Domingo ou segunda-feira.

Pois bem, face a este cenário, penso que não seja apropriado ou até mesmo elegante para Jorge Jesus justificar o fracasso com fatores de calendarização, pois estes são iguais para todos, e como todos se lembram, José Mourinho e André Vilas Boas conseguiram conquistar competições europeias e campeonato nacional no mesmo ano, em circunstâncias de calendarização idênticas.

Talvez, seja altura de Jesus ser menos “egocêntrico” ao tomar todas as decisões sozinho. Talvez seja necessário mais primazia ao trabalho em equipa, assim como permitir que o seu conhecimento se torne mais rico através de uma articulação entre a sua experiencia e a dimensão académica. Talvez não seja por acaso que José Mourinho não abdique do seu braço direito Rui Faria, o elemento responsável pela assimilação e conversão do conteúdo académico para uma dimensão prática.

3. Os sócios. Os objetivos de um clube não devem ser escolhidos em função do que os adeptos pensam. Já reza a lenda que é impossível agradar a Gregos e Troianos. Os adeptos, tem a sua palavra nos atos eleitorais. Cada adepto vota em função do projeto que lhe agradar mais e consequentemente deve acreditar e apoiar a sua implementação. Se os adeptos tivessem constantemente uma voz ativa e impetuosa, os clubes seriam geridos em constantes votações de braço no ar, sem qualquer tipo de rigor ou responsabilidade. Quando votam, os sócios delegam na direção a gestão do clube, de acordo com um programa, com ideias, com promessas. E ponto. Um treinador não se pode orientar ou guiar em função dos adeptos.

Nota: Tal como já manifestei anteriormente, tenho bastante respeito por Jorge Jesus e admiro-o bastante como treinador. Tem imensas qualidades e tem dado estabilidade ao Benfica durante os últimos anos.

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