O pobre e o nobre

Um resultado de números dobrados traduziu na perfeição aquilo que foi um jogo de contrastes. Em Gdansk, na Polónia, o segundo jogo dos quartos-de-final do Euro 2012, que opunha a Alemanha à Grécia e que acabou com a vitória da Mannschaft (4-2) era, na verdade, um embate político encoberto. Por muito que o tenham desmentido responsáveis e jogadores de ambas as equipas, a presença de Angela Merkel nas bancadas pela primeira vez desde que começou o Campeonato da Europa, era a prova evidente de que se assistia a muito mais do que um simples jogo de futebol. 

Indisfarçável era também a vontade política dos gregos em retaliar em pleno relvado a apertadíssima repressão económica que têm vindo a sofrer da ‘troika’ e da Alemanha na figura da sua chanceler. Pois bem, a verdade é que a crise não tirou os adeptos gregos do estádio que se apresentaram em grande número para ver a sua equipa ser incapaz de subjugar uma poderosa Alemanha, no parlamento e no relvado.

Sem o seu principal municiador de ataque, Giorgos Karagunis, a Grécia era avaliada com menos uma estrela no ‘rating’ para este jogo. Há muito sem líderes no ‘parthenon’, nem foi de estranhar que os gregos se tenham dado bem sem o seu capitão no relvado.

No decorrer do jogo, aquilo que mais faltou à formação de Fernando Santos nem foi capacidade de concretização. Foi antes… organização defensiva. Não que a sua equipa não tenha tentado, mas foi tudo em vão. Com onze democratas em campo, convencidos a defender pela campanha eleitoral de técnico luso, o confronto com os cadetes da casa alemã, equipa mais jovem do Europeu, até estava a correr bem quando corria a meia-hora de jogo.

A jogar com Marco Reus, André Schürrle e Miroslav Klose no lugar de Thomas Müller, Lukas Podolski e Mario Gomez, os bárbaros encaravam dificuldades para furar a resistência grega, que defendia-se bem ao modo espartano. Mas para grandes problemas, grandes soluções. Neste caso de um pequeno jogador: Philipp Lahm, capitão germânico, voltou a aparecer no papel de bombardeiro deixando a marca dos seus torpedos neste torneio.

Faltavam cinco minutos para o intervalo quando Lahm, num movimento que lhe é característico, flectiu para o meio, viu a oportunidade e disparou para a baliza, mandando pelos ares a defensiva grega “feita de granito”, segundo dizia Joachim Löw, treinador germânico, no lançamento da partida.

Mudou tudo este golo. Com a pedra feita em estilhaços seria de prever que arriscasse mais a Grécia e que, com isso, ficasse facilitado o trabalho da bem apetrechada armada alemã. Pura ilusão. Os pobres gregos, com lanças de paus, lá se continuavam a defender dos canhões de prata alemães. E os helénicos foram mantendo esta postura até aos 55’, altura em que, apanhando desprevenida a formação alemã que acendia a mecha de mais um ataque, os gregos conseguiram flanquear a linha defensiva da ‘Mannschaft’ e desferir um golpe profundo que rasgou a cota de malha aos germânicos.

Dimitris Salpingidis conduziu o contra-ataque pela direita e assistiu Giorgios Samaras que conseguiu antecipar-se a Jérôme Boateng para restabelecer a igualdade, ante a resistência de Manuel Neuer que quase conseguiu evitar o inevitável.

Resiliente, esta Grécia parecia manter a capacidade de regressar do mundo dos mortos, para Merkel ver. Porém, novo golpe de teatro na partida. Quando se esperava uma atitude mais aguerrida dos helénicos eis que a resposta alemã foi demasiado forte. O início da tragédia grega começou seis minutos depois com mais um míssil, este agora a sair do pé de Sami Khedira após cruzamento de Boateng. Perante material bélico desta categoria era difícil aos gregos, mais parcos também em soluções e ideias, estar à altura das circunstâncias.

O desaire helénico continuou oito minutos (68’) volvidos na cabeça de Klose que contou com preciosa colaboração do guardião grego. É que o problema da defensiva helénica (já aqui falado) começou na baliza onde estava o suplente Michalis Sifakis que foi incapaz de fazer esquecer o habitual titular Kostas Chalkias, fisicamente incapacitado desde o jogo com a República Checa, o segundo da fase de grupos.

Num livre lateral enviado por Mesut Özil, o agora dono da baliza helénica mediu mal o tempo de salto e permitiu a Klose antecipar-se-lhe para o 3-1. Estava ampliada a vantagem assim como o currículo deste notável goleador que soma mais um golo dos muitos que já marcou em fases finais de competições internacionais.

Passavam mais seis minutos após este episódio (74’) e o carrossel alemão parecia imparável com os seus artistas à solta a darem largas à criatividade. Foi então a vez de Reus fazer o gosto ao pé, justificando (também ele) a chamada ao 11, com um ‘volley’ na passada.

A tendência da partida apontava para uma expressiva goleada mas, uma vez mais, a narrativa tem um desenlace inesperado. Boateng, ele que esteve muito em jogo nos bons e maus momentos da sua equipa, volta a estar ligado a outro tento grego por ter jogado a bola com a mão na sua área.

Em clara bancarrota no marcador, a Grécia não enjeitou este pacote de ajuda desportiva providenciada por uma Alemanha que a defender teve as mãos-largas para com os helénicos. Encarregado de converter o materializar o castigo máximo em golo, Salpingidis, o hércules grego, apontou um golo que frivolamente remava contra a maré do mar do norte.

Caía assim o pano do encontro e do marcador e saía reforçada a ‘Mannschaft’ na caminhada rumo à final. No fim de contas, deu-se ao luxo de poupar jogadores ante a miséria grega, com um plantel curto ao qual se acrescem lesões e a suspensões.

A opulência de uns é a penúria de outros. Tem muito futebol e muita qualidade esta Alemanha que demonstra que mais do que uma equipa, tem um grupo. São donos e senhores da bola, uma equipa de linhagem nobre que assume o estatuto de candidato ante uma empobrecida Grécia, de parcos recursos humanos e futebolísticos, que conseguiu neste Europeu tudo o que lhe foi humanamente possível.

É este o resumo de um jogo de contrastes. Uma equipa cinzenta e outra de cores vivas. Uma foi pobre, outra foi nobre. Fazendo uso do seu poder, foi assim que os alemães expulsaram os gregos da Zona Euro.

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