Uma morte anunciada


Angel Kappa dizia que “o futuro do futebol está no passado” e a prova disso que está neste Euro 2012. O futebol vai-se adaptando a modas e sobretudo ás características dos jogadores, cada vez mais físicos e técnicos. O 4-2-3-1 é o esquema que impera nesta edição do Euro, usam-no a Alemanha, Polónia, Holanda, França e por vezes Portugal. Esta versão táctica apareceu no final dos anos 80, em grande medida por culpa de Diego Maradona e da Argentina de 86. Todas as equipas tinham um homem de referencia, o centro do jogo. O resto de jogadores estavam ao serviço e mercê desse homem a que em Itália chamam de trequartista ou vulgo ‘10’. Grandes jogadores como Francescoli, Laudrup, Platini, Baggio, Rivaldo, Zidane, Rui Costa etc. emergiram durante os anos 80 e princípios da década de 90.

O perfil desse jogador é fácil de traçar: habilidoso, tecnico, imaginativo e com um talento superior aos demais. Também com certa tendência ao caos, á desordem e á irregularidade. Todos partilham uma personalidade algo conflituosa e um escasso gosto por “meter a perna”, ou seja pouco rigor defensivo. Factor chave, quanto a mim, para a sua extinção.

Durante os anos 90 o futebol foi evoluindo, tornando-se mais físico e obrigando á presença dum duplo pivot defensivo. Poucas equipas recorrem a um homem solto, com liberdade de movimentos entre linhas e com pouca presença defensiva. Exige-se mais rigor táctico e físico, ou seja vão descaindo para as alas.

Exemplo disso é Rivaldo no Barcelona, que consegue um número bastante alto de golos, jogando muitas vezes como extremo ou como ponta de lança. Zinedine Zidane também. No Real Madrid joga encostado na esquerda com tendência a “cair” no meio, deixando espaço para as subidas de Roberto Carlos. Ambos foram Bola de Ouro e conquistaram vários títulos colectivos.

Um exemplo mais tardio e talvez o ultimo ‘10’ da história, foi Ronaldinho que atingiu o seu pico de forma jogando como extremo no Barcelona. Outros exemplos são Riquelme no Villareal, Guti um génio inconformado a mudar a sua posição e com problemas de personalidade tal como Robinho.

Deco é outro exemplo de um 10 que se foi adaptando ao futebol moderno e alterou o seu perfil, sobretudo na sua passagem pelo Barcelona. Kaka, Totti, Pirlo ou Seedorf juntam-se á larga lista.

Assim chegamos aos últimos anos da década de 2000. Ao médio ofensivo já não chega que marque uns quantos golos e dê uma dúzia de assistências. Exige-se muitos mais. Tem que participar em todos os movimentos da equipa. Os jogadores de perfil de 10, foram-se encaixando nos sistemas como extremos de perfil alterado (canhotos a jogar na direita por exemplo), médios centro ou falsos avançados. Em Portugal temos vários exemplos disso como Aimar, James, Matias Fernandez, Lima etc. Jogadores habilidosos condenados a jogar nas alas ou a esperar no banco. Idem para jogadores estrangeiros como Iniesta, Ribery, Ozil, Robben, Sneijder, Modric…

Cada um com as sua características soube adaptar-se com maior ou menor sucesso e a posição ‘10’ foi morrendo lentamente ou melhor foi evoluindo. Já não vemos jogadores perdidos no meio campo adversário á procura duma jogada para se activarem. Agora baixam para procurar jogo e iniciar as jogadas por conta própria, partindo de varias posições. A pressão de Iniesta ou o trabalho defensivo de Ozil são dois exemplos das duas melhores equipas do mundo.

Nessas equipas é impossível deixar de fora a Cristiano Ronaldo e Leo Messi. O duelo que travam por bater records, faz com que o futebol evolua. Em Barcelona, Guardiola adaptou a táctica da equipa ás virtudes do astro argentino. No Real Madrid é notório ver como Benzema e Higuain abrem espaços para as entradas mortíferas de Cristiano. São jogadores que aparecem em qualquer lugar do campo e que chegam á área como flechas.

Outro caso que pode alterar a história do futebol é Neymar. Tem talento, sabe driblar, procura jogo atrás e tem cifras goleadoras impressionantes aos 20 anos. No entanto as duvidas aparecem quanto á sua adaptação ao futebol europeu, físico e cabeça. Neymar pode muito bem provocar um terramoto no futebol europeu.

O futebol não está estagnado. Os deuses da bola não o permitem.

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