Entrevista João Miguel Tavares

João Miguel Tavares é, aparentemente, um espírito chistoso que se licenciou em Ciências da Comunicação. A carreira de jornalista (não de engraçadinho) deste portalegrense de 38 anos começou no ‘Diário de Notícias’. Em 2007, porém, decidiu que era tempo de fazer surgir a revista ‘Time Out Lisboa’, e se bem o pensou, melhor o fez. Tanto assim é que a continua a fazer. Ao cargo de sub-director da revista mensal junta ainda a sua opinião a uma coluna do Correio da Manhã. Mas, não satisfeito com tudo isto que faz, tende ainda a dar voz ao seu sentido de humor na TSF, ladeado por Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira na rubrica ‘Governo Sombra’. É uma entrevista de DEZ valores em outros tantos possíveis de um profissional que  vê no dia desta publicação o ponto alto da sua carreira. Sem sombra de dúvidas.

Como homem da rádio, como vê a relação da rádio com o futebol?

Deixem-me discordar da premissa inicial. Eu não sou, nunca fui, nem pretendo ser um homem da rádio. Até porque sou deficiente da fala. Mas, sim, acho que não há nada como um bom locutor para nos pôr a vibrar com o que se passa dentro de campo. Não é por acaso que, quando a própria televisão quer pôr o país a comover-se com os golos da selecção nacional, a primeira coisa que faz é ir buscar um relato radiofónico eufórico da bola a entrar na baliza.

O futebol pode ser cultura ou é apenas um passatempo?

Há uma longa linhagem de grandes escritores, com Nelson Rodrigues à cabeça, que podem responder a essa pergunta melhor do que eu. De qualquer forma, cultura e passatempo não são opostos. Não acho que o futebol deva pagar menos do que 23% de IVA, mas acho que ele preenche um lugar muito importante na nossa cultura, no sentido mais lato da palavra. O futebol é um espantoso indutor de paixões, e as paixões são a matéria dos filmes, dos livros e dos discos. Se não é cultura, dorme com ela muitas vezes.

Acha que os governos e os políticos se aproveitam do fenómeno do futebol?

Hoje em dia menos, porque, graças a todos os santos, Rui Rio foi uma fantástica vacina contra isso. Um tipo que está assumidamente de costas voltadas para a bola e para o Futebol Clube do Porto, foi eleito e reeleito presidente da Câmara do Porto, demonstrando aos nossos políticos que os portugueses são menos estúpidos do que eles pensam e sabem separar as águas. Claro que os políticos, como qualquer ‘portuga’, gostam de cravar uns bilhetes e umas viagens de avião para ir ver jogos ao estrangeiro. Mas se for só isso, menos mal.

Imagina algum líder político como dirigente desportivo?

Imagino um país onde nem os líderes políticos ambicionam ser dirigentes desportivos, nem os dirigentes desportivos ambicionam ser líderes políticos. Cada macaco no seu galho.

É difícil ser adepto do Benfica nos dias que correm?

Nada disso. O Benfica dá-me muito mais alegrias agora do que há dez anos. O clube está mais sustentado, tem um rumo, não despede o treinador ao primeiro desaire, e parecendo que não isso faz toda a diferença. Estou mesmo convencido de que o Benfica vai voltar a ganhar campeonatos com regularidade.

Comente as seguintes manchetes: 

 

“José Mourinho candidata-se a Primeiro-Ministro”

O meu voto iria para Pep Guardiola.

“Cristiano Ronaldo retira-se para dedicar-se ao cinema”

Tendo em conta os anúncios que grava, não tem qualquer espécie de talento.

“José Sócrates será o novo presidente do Benfica”

Dezenas de milhares de sócios (eu incluído) entregariam o cartão.

“Cavaco Silva assessor de imprensa da federação portuguesa de futebol”

Só se for numa peça de teatro dos netos. Cavaco tem tanta vocação para assessor como Cristiano Ronaldo para actor.

Comente as seguintes manchetes: 

 

“José Mourinho candidata-se a Primeiro-Ministro”

O meu voto iria para Pep Guardiola.

“Cristiano Ronaldo retira-se para dedicar-se ao cinema”

Tendo em conta os anúncios que grava, não tem qualquer espécie de talento.

“José Sócrates será o novo presidente do Benfica”

Dezenas de milhares de sócios (eu incluído) entregariam o cartão.

“Cavaco Silva assessor de imprensa da federação portuguesa de futebol”

Só se for numa peça de teatro dos netos. Cavaco tem tanta vocação para assessor como Cristiano Ronaldo para actor.

Sim, se por reflexo da realidade portuguesa entendermos: o país está falido, e o dinheiro no futebol não abunda. Os clubes podem ser melhor ou pior geridos, mas no final o que conta, no século XXI, em que uma equipa já pode ter quase tantos estrangeiros quantos lhes apetecer e a oferta é infinita, é mesmo o pilim. Hoje em dia o Sporting está a afastar-se das contas do título não por ser necessariamente pior gerido do que o Benfica, mas porque tem muito menos adeptos e não consegue gerar tantas receitas. Nenhuma das escolas dos clubes grandes produz actualmente quaisquer frutos, só que o Benfica consegue ir buscar dinheiro a outros lados. Infelizmente, acho que a tendência é mesmo para o Sporting se aproximar do Braga, e não do Benfica.

A crispação que existe no mundo do futebol é culpa da imprensa?

Não. É culpa em 90% dos dirigentes dos clubes, que tentam invariavelmente esconder os seus erros e incompetências com o fantasma do sistema e os falhanços dos árbitros. São eles que incendeiam os estádios e se comportam como crianças irresponsáveis. Deviam ter vergonha na cara.

Gosta de ler os jornais desportivos? Segue as crónicas de algum jornalista em particular?

Raramente leio jornais desportivos, até porque as secções de desporto dos jornais generalistas dão bastante atenção ao futebol. Mas diria que, nos tempos mais recentes, a secção de desporto do ‘jornal i’ conseguiu marcar o jornalismo desportivo, e já há quem se entretenha a copiá-los, sobretudo as magníficas entrevistas do Rui Miguel Tovar.

A crise actual nos meios de comunicação é só económica ou também é de conteúdos?

Também é de conteúdos, porque o jornalismo português tem os mesmos problemas de qualidade e produtividade de quase todos os outros sectores da economia. Mas é independente dos conteúdos, no sentido em que acredito que os problemas económicos permaneceriam mesmo que tivéssemos os melhores jornais do mundo. Eu costumo dar este exemplo. Quando o carro substituiu a charrete, os fabricantes de charretes poderiam estar a construir as melhores charretes do mundo que não deixariam de ser charretes. Perante o desafio das novas tecnologias, os jornais são isso: charretes tramadíssimas pela evolução da técnica.

Acredita que o jornalismo desportivo tende a ir pelo caminho mais fácil? Por exemplo as capas dos desportivos fazem manchete dos treinos, apesar de haver histórias muito mais interessantes no futebol…

Acho que, demasiadas vezes, o jornalismo desportivo é o jornal ‘Avante!’, só que com bola – e isso pura e simplesmente não é jornalismo. Acho também que muita coisa não é escrutinada por medo de represálias dos principais clubes. Acho, finalmente, que nada irá mudar. As publicações sabem perfeitamente o que funciona ou não em termos de capas, e num meio com escassíssima publicidade são as vendas em banca que contam.

Scolari, Carlos Queiroz e Paulo Bento. Como vê o impacto de cada um no futebol português?

Eh pá, isso é pergunta para tese de doutoramento. Assim de repente, diria que o grande mérito de Scolari é mais psicológico do que futebolístico: apanhou uma grande geração e soube criar um espírito de Selecção à volta dela, com bandeirinhas nas janelas e canções foleiras nos autocarros. Queiroz foi muitíssimo importante… aí entre 1989 e 1991. Com adultos nunca conseguiu fazer nada. Pior: destruiu todo o seu capital de simpatia com arrogâncias e ressabiamentos. Paulo Bento chegou às meias-finais do Europeu. Tem o pior penteado de sempre e a teimosia de uma mula, mas… chegou às meias-finais de um Europeu.

Que jogador o impressionou mais?

O jogador que mais me impressiona – sempre – é Messi. Faz lembrar aqueles jogos de futebol com velhos de 40 e 50 anos em que um deles tem um filho de 20 anos cheio de técnica e velocidade que os outros só vêem passar de mota. Messi faz isso, só que com atletas profissionais. É o maior (desculpa, Cristiano)!

Qual é o seu livro de cabeceira? Algum sobre futebol?

Eu tenho não um livro mas uma estante (a sério) à cabeceira. Vou saltando entre autores e géneros, consoante os estados de espíritos, o tempo disponível e as obrigações profissionais. Mas é muito raro ler livros sobre futebol.

Recomendaria algum filme sobre desporto? Ou são demasiado ‘clichés’?

Se há algum bom filme sobre futebol, assim de repente não estou a ver. Mas o velho “Fuga para a Vitória” (John Huston, 1981) há-de ficar para sempre no meu coração. Um filme que tem no mesmo elenco Sylvester Stallone e Pelé merece tudo de bom.

Faça sombra às seguintes personalidades:

Passos Coelho

O tenor de Massamá ainda é um mistério. Tem o mérito de não abdicar de cumprir o memorando; tem o demérito de estar a demorar eternidades a reformar o país.

  

Pinto da Costa

É um grande piloto à frente de um grande carro. Infelizmente, gosta tanto de acabar corridas em primeiro lugar como de atirar os concorrentes para fora da pista.

Jorge Jesus

Faltam-lhe títulos, mas ao contrário de tantos outros é um mestre a valorizar jogadores. Vieira fez bem em segurá-lo.

Sá Pinto

Uma surpresa, já que pôs o Sporting a jogar com garra – só que depois falhou todos os objectivos do clube. A avaliar em 2013.

Paulo Bento

A teimosia começa no penteado e acaba nas suas equipas. Mas conseguiu instalar um espírito de grupo na Selecção e isso é uma grande conquista.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s