A histórica final sem história

Domingo, dia um de Julho de 2012. A cidade de Kiev, capital da Ucrânia, recebia o jogo mais esperado do calendário futebolístico do Velho Continente, que parou para ver a Espanha trucidar uma Itália feita em fanicos, num jogo arbitrado por uma equipa portuguesa encabeçada pelo todo contestado Pedro Proença.

Depois de ter “arrumado” a Alemanha, poucos esperariam uma Itália tão impotente a permitir que Espanha replicasse o resultado mais desnivelado do Euro 2012 (4-0), que de resto tinha já aplicado à Irlanda na fase de grupos. As duas equipas tinham-se defrontado já na ronda inaugural do campeonato da Europa, num jogo vibrante e bem mais espetacular do que este da final que acabou por ser, por vários motivos, uma final histórica mas que se traduziu num jogo sem história.

A verdade, verdadinha desta final foi que a Itália entrou em jogo completamente equivocada. Deslumbrado e rendido às prestações da sua equipa ante Inglaterra e Alemanha, e talvez também ludibriado pela magnífica performance que Portugal conseguiu frente La Roja nas meias-finais, Cesare Prandelli terá julgado que podia discutir o jogo com a Espanha de igual para igual. Pura ilusão. O excesso de confiança do timoneiro dos transalpinos notou-se logo no discurso com que fez o lançamento da partida: “Quando se fala da Itália é preciso sempre ter cuidado” – disse. O problema aqui foi que a própria Itália esqueceu-se de zelar pelas suas próprias cautelas.

No jogo da fase de grupos, a Itália havia optado por povoar o seu meio campo, jogando num esquema de 3-5-2. Com isto, a Itália ganhou um médio para batalhar com o futebol de passes curtos da Espanha, tendo-se com isso livrado de um defesa desnecessário, uma vez que a Espanha surpreendeu ao jogar sem ponta-de-lança, relegando Torres para o banco. Ora a estratégia da Itália nesse jogo acabou por encaixar na perfeição no sistema castelhano. É evidente que este choque tático não foi inocente, mas também não terá sido totalmente propositado. E nesta final, Prandelli não soube perceber isso, e por esse motivo baqueou com estrondo no palco principal do olimpo europeu.

Desta feita, o 4-4-2 italiano partiu o jogo da equipa e foi como que canelone para a mesa espanhola. Estiveram dois centrais soltos, sem homens para fazer a marcação e dois laterais incapazes de dar profundidade aos corredores que, ao não disporem sequer de extremos, amordaçaram a Squadra numa total incapacidade ofensiva.

É que Portugal, apesar de ter jogado com uma linha de quatro defesas, tinha em Pepe um jogador mais subido à procura da marcação, não se limitando a fazer as dobras a Bruno Alves. A juntar a isso a chamada de Negredo ao 11 facilitou as operações da defensiva portuguesa nesse jogo. Não obstante, o modelo de jogo luso é sustentado em laterais e extremos que esticam o jogo até ao limite. Ora o mesmo não se verificou nesta Itália finalista. E Prandelli falhou redondamente em todos os capítulos do jogo, não tendo demonstrado perspicácia para corrigir o posicionamento da sua equipa durante a partida, contribuindo assim para a ‘fiesta’ espanhola, porque, diga-se o que se disser, não foi só a fúria espanhola que contribuiu para esta goleada, foi também uma Itália que se colocou num presumiu acima das suas possibilidades.

O resultado expressivo não deixa, por isso, de ser enganador. A Espanha não é assim tão boa para despachar a Itália com quatro castanholas. Podem apregoar o seu futebol e as suas conquistas que ninguém lhes tira o mérito. Afinal, mantiveram-se iguais a si mesmos durante todo o torneio independentemente das opções tomadas para cada jogo.

Vicente Del Bosque, estupendo treinador, soube sempre surpreender mantendo a imprevisibilidade e potenciando a dinâmica desta equipa. No entanto foi a Itália que se pôs a jeito para dançar o flamengo. A falta de humildade e discernimento na abordagem ao jogo, explicam mais este desaire do que propriamente o cansaço, até porque, apesar do dia a menos de recuperação em relação à Espanha, a realidade é que a partida das meias-finais ante a Alemanha foi bem menos atribulada para os italianos do que foi para os espanhóis o duríssimo despique com Portugal que adiou a decisão da partida até às últimas consequências (prolongamento e grandes penalidades).

No fim de contas, aquilo a que o adepto comum assistiu foi à confirmação da firmação, ao encontro do óbvio com o evidente. Foi com toda a naturalidade que David Silva abriu o marcador logo aos 13’, imagine-se, de cabeça. Num estilo de jogo que dá para tudo, a Espanha não foi de contemplações e manteve o jogo no sentido único da baliza à guarda de Buffon. Olhando para esta Espanha ninguém sabe de quem é suposto esperar que se resolva o jogo pois o seu futebol envolve de tal forma toda a equipa que qualquer jogador pode ser o herói improvável da partida. Em todo o torneio, apenas um golo sofrido. A sua ideia de jogo consiste em deixar a outra equipa fora do jogo. É quase como se só houvesse uma equipa em campo a tourear a outra, o que, para quem não gosta de touradas é deveras aborrecido.

Só que a intenção é mesmo essa. Que qualquer um resolva, numa lógica que revolucionou por completo os cânones mais antigos de jogo, onde os defesas defendem, os médios recuperam e criam jogo para os avançados resolverem. Não é nada disso que se passa com a Espanha. Por isso foi também sem surpresa que a Europa viu Jordi Alba, lateral-esquerdo e novo reforço do Barcelona, na cara de Buffon a desviar com uma simplicidade grotesca para o 2-0. Ao intervalo, a verdade é essa, a Espanha revalidava já o seu ceptro europeu.

A segunda metade foi, por isso, penosa. E foi-o também porque o espetáculo de insanidade de Prandelli começou. Depois de ter perdido Chiellini por lesão na primeira parte, o que talvez até nem tenha sido mau visto que estava a jogar a lateral-esquerdo, Prandelli resolveu tirar Cassano do jogo, ele que até era dos mais inconformados, para lançar Di Natale – troca por troca. Ou seja, a perder por dois golos de diferença, Prandelli fez uma substituição que apostava numa potencial divina inspiração individual e, na realidade, nada mudou.

Nada mudou que não fosse a predisposição italiana que tentava reentrar no jogo com incursões individuais de Balotelli e pela obstinação de Pirlo. Di Natale falhou ainda o 2-1, só que, neste período em que os transalpinos esboçavam uma reação, o treinador da Squadra Azurra resolve-se por nova jogada de mestre: sai Montolivo, o médio mais criativo da equipa, autor de um passe de morte para o segundo golo de Balotelli ante a Alemanha e coloca em campo… Thiago Motta – médio defensivo. Recorde-se que a Itália estava a perder por dois golos.

Para mal dos seus pecados, Prandelli esboçava uma expressão de incredulidade ao ver que, minutos depois de ter entrado, Thiago Motta estava estendido no chão. KO para o médio brasileiro naturalizado italiano e as substituições esgotadas com meia hora de jogo pela frente.

Foi o canto do cisne para a Itália, cada vez mais um touro esbaforido perante os ‘olés’ espanhóis. Depois entraram Fernando Torres e Mata para dividirem o golpe final no touro com um golo para cada um. Mata então só precisou de 13 minutos em campo para marcar na final do Europeu. Dá mesmo para tudo.

E agora a parte histórica da coisa. Optemos por enumerar, é mais fácil. Então, foi a primeira vez que… uma selecção venceu três grandes provas internacionais seguidas (dois europeus e um mundial), que um treinador (Del Bosque) coleccionou um Europeu, um Mundial e uma Liga dos Campeões, que um jogador (Fernando Torres) conquistou e marcou na final da ‘Champions’ e do Europeu no mesmo ano e que um árbitro (o português Pedro Proença) apitou em ambas as finais.

Para além disso, a Espanha, que em 2007 só tinha conquistado um Europeu no longínquo ano de 1964 – jogando em casa – é agora um dos países mais galardoados da zona euro: três Europeus arrecadados (só a Alemanha tem tantos) e um Mundial. No próximo ano, no Brasil, poderão conquistar a única prova de selecções que lhes falta no cardápio: a Taça das Confederações, que reúne último Campeão Mundial, o organizador do próximo Mundial e os campeões continentais (a representar a Europa estará a Itália).

Com uma selecção de sub-21 também campeã da Europa, e um estilo de jogo cada vez mais vincado, o mundo pergunta-se se haverá alguém que consiga acordar deste canto da sereia com que a Espanha do futebol enfadonho encanta os seus adversários, ou se irá continuar a repetir-se a imagem, também já enfadonha, de Casillas a levantar a Taça Henri Delaunay (ou outra qualquer que seja).

Por Nuno Pereira

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