Construindo o Anzhi

Antes o futebol tendia a florescer em grandes centros urbanos ou mesmo cidades com feira. Hoje qualquer milionário pode aspirar ao sucesso futebolístico no jardim da sua casa. O 118º homem mais rico do mundo, Suleiman Kerisov, propôs-se a levantar um clube numa das zonas mais perigosas do Caucaso e arrisca-se a ter sucesso.

 

Encontrar o interruptor da luz não costuma ser uma tarefa complicada. A não ser que se encontre no quarto número 6 do Hotel Petrovsk de Majashkala. Então se não percebe russo vai precisar de um interprete que traduza as indicações da recepcionista: “Estique o braço atrás do armário”. Mas também não está lá o famoso interruptor, desta forma recorro ao candeeiro da mesinha de cabeceira. Mudar de quarto não é uma hipótese, o meu guia, Danilo, já tentou depois de reparar que a casa de banho não tem lavatório: só uma sanita e um duche. Quando pergunto porque não nos deixam mudar de quarto, quando o hotel parece fantasmagoricamente vazio, entra ele: já de meia idade, gordo e calvo. Trata-se de Nurillar Korbasov, o dono do hotel, acompanhado de 20 homens de fato de treino.

“Estes são os jogadores do Krylia Sovetov de Samara. Ficarão aqui alojados até amanhã de manhã e jogarão contra o Anzhi. Todas as equipas ficam aqui quando jogam contra eles” – diz cheio de orgulho. O Hotel Petrovsk não é o único da zona, quando um turista se propõe a visitar a pouco turística cidade de Majashkala, capital russa da zona do Caucaso. O edifício de aspecto industrial fica em frente duma bomba de gasolina e o dono apregoa que é o melhor da região. “Tenho uma coisa para te mostrar” diz.

Depois de percorrer vários corredores tenebrosos, abre uma porta e acende a luz. Onze ímans vermelhos e outros tantos azuis,  iluminam-se num quadro ao fundo da sala. É a sala de conferencias e numa das paredes está o ex-libris do Hotel, uma colecção de camisolas de futebol. “São das equipas que ficaram aqui alojadas, ali tens uma do Arshavin quando estava no Zenit e outra do Vagner Love. Todas autografadas, ah?”, acrescenta.

O Anzhi também costumava ficar aqui hospedado. Mas em 2010 tudo mudou, quando o milionário Kerisov, cujos 7600 milhões de dólares fazem dele um dos homens mais ricos do planeta, segundo a revista Forbes. Desde essa data conseguiu atrair a uma das cidades mais inseguras da Rússia, estrelas como Roberto Carlos e Eto’o (o mais bem pago jogador do mundo que aufere 20,5 milhões de euros por ano). O camaronês nunca pisou o Petrovsk, a equipa vive e treina em Moscovo (a 2000 km), mas a sua camisola figura na colecção do dono do hotel. “Falta-me a de Roberto Carlos, prometeu-me que amanhã me entregava”.

Novos ricos

Há uns anos, um Anzhi x Krylia Sovetov, não atraíria a atenção do mais comum adepto do futebol. Seria talvez um jogo para decidir a despromoção. Agora o Anzhi é um dos clubes mais ricos do mundo e o facto de as estrelas que puseram a cidade no mapa do mundo do futebol não queiram lá viver é um mero detalhe. Tudo parece indicar que o Anzhi está destinado a ganhar ou participar em grandes competições e imagino a Cristiano Ronaldo, Messi ou Rooney a tentar encontrar o interruptor da luz do Petrovsk.

Um jogo na Colômbia em Fevereiro de 2010, decidiu o destino de dois dos jogadores mais admirados de todos os tempos. O Corinthians era eliminado da fase de grupos da Libertadores pela primeira vez na história e colocou no centro das atenções a Ronaldo e a Roberto Carlos. Farto de lutar contra a balança, o primeiro decidiu pendurar as botas duas semanas depois e Roberto Carlos decidiu ouvir a proposta dourada de um clube desconhecido. As constantes ameaças de morte por parte dos adeptos paulistas tirou-lhe as dúvidas e decidiu rumar ao Daguestão, uma daquelas regiões que os governos desaconselham visitar.

Daguestão significa terra de montanhas. É das maiores e mais habitadas regiões da Federação Russa, com mais de 3 milhões de habitantes espalhados pelas diversas aldeias da zona. A BBC considerou a região a zona mais perigosa da Europa. A culpa da violência é do grupo fundamentalista islâmico Shariat Jaamat e das forças da ordem que a combatem. Os islâmicos querem que a região independente e que seja regida pela lei Sharia (islamismo) e podem ser considerados os herdeiros do conflito da Tchechenia. Durantes os anos 90 muitos lideres combateram na zona. A policia e o exercito não facilitam as coisas, fazendo detenções ilegais, usando a violência e cometendo assassinatos. A repressão estatal e as elevadas taxas de desemprego da zona faz com que milhares de jovens sejam obrigados a sair da zona. Acabam irremediávelmente nos subúrbios de Moscovo.

O Daguestão e Tchechenia não compartem apenas a cultura e os conflitos religiosos, ambos gostam de misturar política com futebol. O dono do Anzhi é senador do partido Rússia Unida (partido de Vladimir Putin). Alianças parecidas existem entre o Kremlin e Ramzam Kadyrov, ex-guerrilheiro tchecheno, governador local e presidente do Terek Grozny. Recentemente convidou estrelas como Figo, Fowler, Maradona e Baresi a Inaugurarem o novo estádio da capital tchechena. Á base de dinheiro e presentes luxuosos convenceu-os a esquecer a longa lista de crimes contra a humanidade de tal personagem.

 

Esquecimento entre montanhas

Onde Grozny falhou, Makhachkala parece não querer falhar: a construção de uma grande equipa. Kadyrov não conseguiu por o clube na elite russa apesar da contratação de treinadores de renome como Gullit ou Victor Muñoz. As duas cidades tem uma posição chave na nova rede de oleodutos que Moscovo quer construir, mas os conflitos existentes no Daguestão parecem não querer ajudar na modernização de Majashkala.

“O futebol pode ajudar e melhorar a vida dos habitantes do Daguestão” afirma German Chistyakov, vice-presidente do Anzhi, já que Suleiman não fala publicamente. Tem o perfil do típico oligarca russo e não se sabe bem a proveniência da sua fortuna. A sua carteira de investimentos incluem negócios imobiliários, gás natural e petróleo. Em 2008 por culpa da crise perdeu 14 mil milhões de dólares, mas parece que já se recuperou.

Uma das poucas pessoas que contacta com o presidente é Roberto Carlos, diz que apostou no projecto pelo futuro do mesmo e não propriamente pelos milhões. “Ele quer modernizar e fortalecer a cidade e até mudou as cores da equipa para verde e amarelo para tornar o clube mais brasileiro” confessou-me em Moscovo. É aí que o Anzhhi treina, no complexo desportivo do já extinto Saturn. “É uma solução temporária, enquanto não acabam as obras do novo centro de treinos de Majashkala, é certo que a insegurança também tem a sua importância, mas acredito que a situação tem vindo a melhorar”. Moscovo tornou-se uma das capitais mais luxuosas e caras do planeta, ao longo das enormes avenidas estalinistas é possível ver toda a espécie de carros de luxo parados no transito infernal da capital russa. Um dos presentes de Suleiman para Eto’o foi precisamente um helicóptero para fazer mais rapidamente os 40 km que há do centro da cidade até ao local onde treina. O camaronês rejeitou.

Roberto Carlos foi essencial na transferencia de “Samuca” Eto’o, alcunha que ganhou nos tempos em que jogavam juntos no Real Madrid. “sempre lhe digo que fui eu que o ensinei a jogar. (…) vão chegar mais estrelas no futuro.” Van Persie, Hulk, Tevez… São alguns dos nomes. Admite também que falou com compatriotas como Neymar e Ganso: “Ainda são jovens e entendo que prefiram outras opções como o Real ou Barça”.

Roberto Carlos não da muita importância á alcunha “the boss” que lhe puseram no Anzhi, o treinador-jogador não faz muitos jogos e já não o vemos a percorrer a ala esquerda como fazia antes. Converteu-se num médio defensivo e num assessor desportivo de Suleiman. “Ele trata do financeiro e eu do desportivo”.

 

Ódio no clássico

17 horas depois encontro-me no estádio Khimki onde se vai disputar o jogo. O Dínamo de Moscovo recebe o Anzhi e o ambiente fora do estádio é tudo menos pacifico. A policia vedou a área e ouvem-se gritos do comandante das forças de segurança para os seus homens. Os nacionalistas russos não gostam das gentes do Caucaso e em 2010 já houveram alguns incidentes entre ultra-nacionalistas que levavam cartazes dizendo “Rússia para os russos” ou “Não queremos alimentar o Caucaso”. Alguns adeptos do Anzhi tentam passar desapercebidos, escondendo a camisola como podem. Shamil e Arshad conduziram durante 7 horas para ver o jogo, mas Mohamed teve mais sorte: veio num charter fretado por Suleiman, com tudo pago. Se o clube não leva adeptos ás deslocações, o milionário resolve á base de “golpe de cheques”. Em Maio do ano passado pagou a deslocação a mais de 3000 adeptos.

Acaba o jogo e o dono do Anzhi sai rodeado de 10 seguranças que parecem de pedra, só reparo na sua presença porque Mohamed me adverte. Pouco depois sai Eto’o, com a mesma velocidade e aparato que o seu patrão. Roberto Carlos demora um pouco mais e deixa-se fotografar pelos adeptos.

Viagem ao passado num Topolev

 

Dois meses depois faço o meu primeiro voo de Moscovo a Makhachkala num Topolev. Tento abstrair-me das estatísticas que dizem que este é o avião mais inseguro do mundo. As saídas de emergência foram tapadas com mais 2 filas de assentos, durante a primeira meia hora de voo tento entreter-me ao apertar o cinto de segurança, depois reparo que inclinar o assento não está ao alcance da minha mão. Aqueles apitos que não queres ouvir durante uma viagem de avião fazem-se ouvir e o meu pânico só é acalmado por uma simpática avó que continua a ler a sua revista. A meio do voo conheço um espanhol que me pergunta onde vou ficar alojado. Respondo-lhe no Hotel Petrovsk ao que me diz que não é própriamente um cinco estrelas, um dois e meia talvez.

Conforme o previsto pela senhora que lia a revista aterramos no aeroporto de Makhachkala, a cidade fica a meia hora e pelo caminho vou vendo algumas casas espalhadas debaixo de uma luz crepuscular. A paisagem só é interrompida por placare com a figura de Eto’o e Roberto Carlos que me confirmam que estou na casa do Anzhi.

Makhachkala é uma cidade em construção, dos edifícios abandonados e das antigas casas, erguem-se gruas. O efeito Anzhi faz-se sentir.

 

Algumas gruas que se erguem no horizonte da cidade servem para construir o estádio Khazar, para o qual o Anzhi se vai mudar quando estiver acabado. Enquanto as obras não terminam, o estádio do Dinamo Makhachkala – clube histórico da cidade, agora amador – albergam as aventuras de Roberto Carlos, Eto’o e companhia. O Anzhi foi fundado em 1991, em plena queda da União Soviética, a primeira década do clube foi celebrada com uma participação na Taça UEFA. O sorteio ditou, que como vice-campeões russos, jogariam contra o Glasgow Rangers. No entanto e com a guerra da Tchechenia a decorrer, o clube escocês negou-se a viajar até ao Daguestão “Teríamos que levar lençóis, almofadas, toalhas, papel higiénico etc. porque ali não há nada nos hóteis”, enumerava o recurso do Rangers á UEFA, que acabou por decidir um jogo em campo neutro, que o Anzhi perderia por 1-0.

Dez anos depois e muitas barreiras políticas ultrapassadas, 15 mil pessoas enchem o estádio para contemplar o Anzhi – Krylia Sovetov que encerra a fase regular da Liga Russa.

Antes que os jogadores saiam para aquecer, falo com João Carlos, o primeiro brasileiro a desembarcar no Daguestão. O que viu quando chegou há um ano, quase o leva para a depressão: “Não gosto nem de me lembrar. Sinceramente, queria ir embora. No terreno de jogo havia ervas daninhas e não tinhamos roupa de treino. Cada um vinha vestido de casa, como se fossemos adeptos a jogar num parque.” Antes que continue, pergunta-me onde estou alojado. Respondo: “Hotel Petrovsk, conheces?”. “Bem… Deduzo que é um sitio divertido” remata com ironia.

O jogo começa com uma retrospectiva dos 20 anos da história do clube. Qualidade duvidosa do audiovisual a combinar com o espectáculo do Anzhi na primeira parte do jogo. A segunda parte começa com um golo dos visitantes. É quando Eto’o reacciona e marca um e a seguir outro. Meia dúzia de camaroneses que estão ao meu lado ficam loucos. Chegaram dois anos antes que o seu compatriota mais famoso, por meio de um estranho programa universitário. “Parece impossível, mas agora é como um irmão para nós. Ajuda-nos e quer saber de nós”, aponta um deles, enrolado numa bandeira do seu país.

Shamil Lakhiyalov, herói local nascido e formado em Makhachkala faz o 3-1 final. Vou para a zona de imprensa e tal como o ano passado, Eto’o abandona o estádio sem prestar declarações á imprensa. Quem sai é Roberto Carlos que ainda se nega a ser visto como um ex-jogador. “Tenho 39 anos, não posso jogar sempre. Mas quero ajudar”.

Regreso ao Hotel e a equipa do Krylia Sovetov já se foi embora. O dono cumprimenta-me efusivamente. Mostra-me a camisola de Eto’o que acabou de conseguir. Enquanto o felicito, penso para mim que o sucesso do Anzhi pode condenar o negócio do Petrovsk. Quando a equipa chegue á Liga dos Campeões terá de acolher centenas de jornalistas, adeptos e estrelas. Há 3 anos Kaká não quis ir para o City e dificilmente Mancini lhe atenderia o telefone, hoje. Mas o dinheiro de sheiques e oligarcas fazem qualquer um mudar de ideias. Quem diz que o Anzhi não o poderá contratar?

Pergunto a Nurullar se está preocupado com o futuro do negócio. “Especula-se muito sobre novos hóteis, mas as equipas acabam por ficar aqui hospedadas. Sabem que nem todos podem oferecer o que nós temos”, proclama de forma enigmática. Volto ao meu quarto e ligo o telemóvel para ter alguma luz. Depois de dois dias, continuo sem encontrar o interruptor atrás do armário. Ligo o candeeiro da mesinha de cabeceira e funde-se a lâmpada.

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