A lei de empréstimos da Liga

A notícia apanhou (quase) todos de surpresa: deixou de ser possível emprestar jogadores entre clubes da Primeira Liga portuguesa. O que antigamente era um procedimento normal e aceite sem quaisquer reservas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) e Federação Portuguesa de Futebol (FPF) foi agora vetado em Assembleia Geral Extraordinária da LPFP pela maioria dos clubes. A iniciativa, liderada pelo Nacional da Madeira e coincidindo com os propósitos de um dos grandes (o Sporting), foi aprovada na reunião magna dos clubes do passado dia 28 de Junho. 19 emblemas votaram a favor, nove votaram contra e um absteve-se, segundo declarações do presidente do Nacional da Madeira, Rui Alves.

Luís Duque, dirigente dos leões, comentou no fim da reunião (em declarações reproduzidas pelo JN) que esta nova regra “vai, sobretudo, dar mais transparência ao futebol português), recordando que no campeonato inglês é assim que acontece. O mesmo dirigente comentou também o facto de, com a criação das equipas B, “os jogadores que precisem de evoluir podem fazê-lo ‘em casa’, isto é, nos clubes que os contratam e em provas profissionais”.

Antero Henrique, director-geral da SAD do FC Porto, foi uma das vozes marcadamente contra esta iniciativa, recordando que até em Inglaterra a decisão foi amplamente debatida durante vários meses. O dirigente vai mesmo mais longe, catalogando, em entrevista a “O Jogo”, esta decisão como “um atentado ao jogador português”.

Por seu lado, quer Mário Figueiredo (Presidente da Liga de Clubes) quer Fernando Gomes (Presidente da Federação Portuguesa de Futebol) afirmaram-se contra esta medida. Mário Figueiredo referiu à RR que não compreende “que se passe da total liberdade para a total proibição”, enquanto Fernando Gomes (em declarações à Lusa) pensa que a iniciativa pode atingir “principalmente atletas de nacionalidade portuguesa”, tendo ainda ambos alinhado no diapasão de que esta decisão pode ter efeitos negativos na sustentabilidade do futebol português. Recorde-se que esta proposta tem ainda de ser rectificada pela Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Futebol.

O futebol português, habitualmente polvilhado por polémicas nos jogos entre clubes grandes, vê assim subir à tona um assunto que se julgava esquecido. A medida está a ser encarada como um esforço para combater um suposto tráfico de influências que existe entre os clubes grandes e os clubes que, com os jogadores dispensados pelos mesmos, conseguem chegar a patamares (leia-se: jogadores) que, financeiramente, nunca lhes seria possível atingir.

Na temporada passada vários jogadores foram emprestados pelos clubes grandes e deram cartas: Atsu (FC Porto, emprestado ao Rio Ave), Adrien Silva (Sporting, emprestado à Académica) e Melgarejo (emprestado pelo Benfica ao Paços de Ferreira) foram figuras, de uma forma ou de outra, neste campeonato que acabou com o clube das Antas campeão. Mas a lista de jogadores que antes de se afirmarem nos grandes (ou no estrangeiro) “rodaram” em clubes da Primeira Liga é extensa – e era, até agora, vista com bons olhos em ambiente de tentativa de subida de qualidade da Liga portuguesa. Por um lado, os clubes contratam jovens e conseguem colocá-los em patamares competitivos bons; por outro, os clubes mais pequenos conseguem ter plantéis com maior qualidade e melhores soluções.

Evidentemente, a suspeição nos jogos contra a “casa-mãe” foi sempre uma constante. Desde lesões nos últimos dias antes do jogo até cartões amarelos que impedem o jogador de jogar o jogo seguinte, bem como penaltis (supostamente) escusados e que dão golos importantes, há circunstâncias que sempre foram vistas como algo duvidosas nestes negócios de empréstimos. Naturalmente, o “favor” recebido por um clube mais pequeno é também sempre convertido em suspeita de eventual “correm mais contra nós que contra o clube que lhes empresta jogadores” – palavra de adepto.

Estas situações, no entanto, arrastam-se desde os anos 90. Jorge Costa, por exemplo, foi recordado até ao fim da carreira por um golo que marcou na própria baliza quando jogava pelo Marítimo contra o FC Porto, dono do seu passe e onde se tornou capitão e figura mais tarde. Por outro lado, e para dar dois bons exemplos bem recentes, na época passada o Benfica agradeceu ao seu jovem emprestado Melgarejo ter marcado o único golo da partida do jogo Paços de Ferreira – FC Porto, enquanto no Sporting muitos devem ter metido as mãos à cabeça depois da exibição de Adrien Silva na final da Taça de Portugal do ano passado, ganha pela Académica ao clube leonino.

A proposta é arrojada e muda um paradigma do futebol português, bem como a planificação de vários clubes mesmo à entrada da época. Se, por um lado, parece ser inquestionável uma quebra na qualidade dos clubes mais pequenos da Primeira Liga, é inegável que o ambiente que se respira nos corredores do futebol português será mais “puro” e com menor suspeição (pelo menos neste enfoque em específico).

 

E os jovens jogadores, portugueses e estrangeiros, como ficam? A entrada em cena das equipas B vão certamente ajudar os jovens a evoluir na cultura do clube e em ambiente competitivo e profissional. Por outro lado, também parece óbvio que o ambiente na Primeira Liga é diferente da Segunda Liga, e que a maturação do jovem jogador não vai ser a mesma do antigamente.

No entanto, devemos colocar uma questão pertinente a nós próprios: quantos dos jovens emprestados pelos clubes grandes voltam, de facto, a “casa”? Quantos são devidamente aproveitados pelos clubes (excepção feita, talvez, ao Sporting -. e este, maioritariamente, por questões financeiras)? Quantos dos leitores conseguem lembrar-se dos jogadores da Selecção de Sub-21? Ou de Sub-20? Que figuras temos?

 

Para reflexão, terminamos deixando este pensamento: será esta decisão mais castradora ainda para o jovem jogador português, mais um prego no “caixão” da formação de jogadores em Portugal ou, por outro lado, será esta decisão a que faltava para, finalmente, os jogadores portugueses terem oportunidades de evoluir dentro do clube e se afirmarem, por direito próprio, no panorama do clube e, em última análise, do futebol português?

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