Grécia – Um modelo em ruínas

Grécia, a musa do mediterrâneo. Quando se pensa nela, é impossível não ter um sentimento romântico de melancolia. Na Antiguidade foi o expoente máximo. o espelho no qual se olharam, invejosos, o resto dos impérios. Cenário de grandes tragédias, era impossível não representar a sua própria com todos os ingredientes das obras primas. Esplendor, apogeu, riquezas, excessos e desperdícios em cuja cúspide começou o seu declínio: o da mitologia e da actual miséria terrena.

Grécia foi a origem de muitas coisas, incluindo, por mais irónico que possa parecer, a palavra krisis. O termo faz referência a algo que se parte e o país helénico já leva bastante tempo partindo-se. Manifestações, confrontos com a polícia ou frases menos simpáticas de dirigentes europeus. De dentro a imagem é ainda mais desoladora.

“Nos últimos 30 anos o estado do país sofreu muito. Ficamos assombrados com as consequências de algo que todos deixamos acontecer. Esta crise afectou-nos mais que ao resto, por culpa dos nossos políticos. Deixaram-se levar, não quiseram resolver o problema e agora só semeiam sentimentos negativos na sociedade”. A reflexão é de Vasilis Tsartas, ex-jogador e actual agente FIFA, que faz uma expressão de um povo que perdeu a confiança nos seus governantes. Cérebro daquela selecção campeã de 2004, o grego incide precisamente nessa carência de liderança que desespera a um povo farto de comprovar que os seus representantes não querem saber dos seus temores, mas sim lucrar-se á custa deles.

 

A depressão

A sociedade grega resignou-se com a ideia de que esta situação não é mais do que um negócio para os “manda-mais” da nação. Deste desamparo nascem as manifestações e as greves. Exigem que chegue o tempo das soluções e dos feitos.

Mas cada dia aumenta mais a pobreza e o desemprego. A taxa de desemprego situa-se nos 20% num país com 11 milhões de habitantes. Este dado incide directamente no aumento da criminalidade e da violência como meio de sobrevivência. Só uma minoria conseguiu escapar do estalar do chicote. “Nenhum político quer ser recordado por ser uma peça-chave no processo de reconstrução do país. Preferem gastar o tempo a procurar uma forma para que os seus nomes apareçam nos livros de história. Os poucos que tem uma ideia clara para sair disto, tem medo de levar a cabo as ideias para não se engarem”, insiste o ex-internacional grego, que não acusa somente á sua classe dirigente.

Tsartas tem bem assente que a entrada do Euro prejudicou a Europa inteira e mostra abertamente a discordância contra o poder excessivo da Alemanha sobre o resto de membros da União. “Não nos apercebemos que deixar o nosso futuro nas mãos dos alemães, só nos pode levar ao mesmo que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial”, conclui. Vasilis sugere um governo único e comum, formado por todos os países, que trabalhe em conjunto para sairmos todos da crise.”Se se actua de maneira diferente com uns e outros é quando chegamos ao estado actual, onde as principais potências ressurgem á custa dos sacrifícios dos mais fracos” acrescenta.

Para sair do fundo do poço, a Grécia oferece várias alternativas. No âmbito das energias renováveis, tanto a energia solar com eólica começam a explorar o seu potencial. Além disso foram descobertas algumas jazidas de petróleo que podem abrir uma nova via de receitas. Potenciar o turismo é a terceira opção, tratando-se de um país com uma ampla oferta de possibilidades.

Glória desperdiçada

Para muitos emigrar para um país com melhores perspectivas seria fácil. Mas para Tsartas a opção não se coloca em cima da mesa: “Se todos forem embora, quem vai levantar o país? A Grécia é dos gregos e nós devemos lutar por sair da nossa crise”.

Vasilis é optimista e, fez a sua parte, centrou a sua carreira nos mais jovens. Como agente FIFA tem vários profissionais, sendo Victor Klonaridis do AEK o mais destacado, mas prefere motivar os que estão a começar. Mima os principiantes porque o futuro do país e do futebol é deles, uma das poucas ideias que é compartida por todos, em grande parte pelo feito de 2004. O combinado helénico conseguiu um triunfo que nem eles mesmos acreditaram. Da mesma forma que hoje devem tentar repetir o feito, tanto no social como no desportivo, mas os problemas do país podem ser transferidos para o futebol. Os adeptos perderam a confiança nos clubes, Consideram que não aproveitaram devidamente o triunfo do Euro 2004 para melhorar as condições, “para dar mais destaque ao futebolista e não ao dirigente”, acrescenta Tsartas. E se juntarmos o escândalo das apostas, as semelhanças entre a política e o futebol são evidentes.

Dani Pastore ratifica. O ex-preparador físico do AEK, conta que 80% dos jogadores que conheceu apostava. O adepto sabia e, quando via resultados incompreensíveis ou atitudes duvidosas, explodia.

A sua experiência na Grécia é ilustrativa. De fora, como visitante observamos com outros olhos o que acontece no país. Pastore assegura que os gregos são extremistas, tanto para o bem como para o mal. “São muito prestativos. Não hesitam em oferecer-te o que precisas, assegurando-te que o terás no dia seguinte. Amanhã. Passado-amanhã. Mas na realidade esse dia nunca chega por melhor que fosse a intenção. No final ficas sem aquilo que te confirmaram que terias”, relata. Essa actitude no futebol provoca que passem da rebeldia ao escândalo em questão de horas.

Os gregos são alarmistas por natureza. Conta Dani Pastore que quando estavam a preparar a temporada suspenderam um jogo em Corfu, porque havia um incêndio na ilha. As notícias que iam chegando eram críticas: “É impossível jogar sem colocar em risco a vida dos jogadores” até que o fogo se foi controlando. Refizeram o calendário, até que umas poucas horas antes do tal jogo, receberam a confirmação de que podiam jogar. Quando aterraram na ilha, o incêndio incontrolável resumia-se a uns pequenos incêndios em alguns pontos determinados.

Apesar da crise, portugueses e demais estrangeiros não param de chegar ao campeonato grego. É uma liga menos competitiva e as oportunidades de brilhar são mais acessíveis, além de poder jogar nas competições europeias nos clubes de topo.

É um acto de simbiose entre jogadores e clubes. Titularidade, minutos e experiência a troco de bons futebolistas. Pastore acrescenta que nem tudo é um conto de fadas: “Quando cheguei ao AEK, começamos a trabalhar a parte física dos jogadores e a importância da técnica. Muitos dos jogadores, sobretudo os mais veteranos, mostravam-se reticentes em levar a cabo os exercícios da forma como estavam a aprender. Consideravam inútil aquele esforço quando a sua selecção em 2004 já tinha provado que com a sua inexistente filosofia de trabalho se podem ganhar títulos”.

Precisamente por este motivo, muitos deles não se cuidam. Fumam, bebem cerveja e deixam-se levar, mal aconselhados, pelos ecos daquele glorioso Euro que ninguém esperava.

Conscientes da sua condição os gregos continuam á procura de uma vitória europeia, que funcione como um bálsamo para por fim á sua decadência, depois de ter batido no fundo. A derrota ás mãos da Alemanha foi bastante dolorosa, mas a epopeia iniciada em Lisboa continua.

One comment on “Grécia – Um modelo em ruínas

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