Vermelho ou preto, Silvio ganha

O que resta de Silvio agora que tudo se desmoronou? Conquistou-as a todas menos uma. Ruby caiu. Noemi caiu. Patrizia caiu. E as outras todas também. Todas menos Belen Rodriguez. E não foi por não tentar. É sabido que o proprietário do Milan é um admirador da beleza da top model argentina, mas sempre se conteve na hora de ama-la. 

Dormiu na minha casa uma noite, mas não fizemos amor porque descobri que estava a sair com um dos meus jogadores” confessou a um amigo em 2009.

O jogador em questão era Março Borrielo. Um suplente, um jogador pouco decisivo. A Berlusconi podem acusa-lo de todos os pecados do mundo, mas o magnata italiano não pratica o incesto.

A crise e os escândalos afastaram-no da cadeira presidencial italiana, mas ele já avisou que não descarta regressar á presidência dos “rossoneri”. Uma péssima noticia para os demais clubes. “El Cavalieri” é o Milan em números: 28 troféus, entre os quais 8 scudettos, 5 Ligas dos Campeões e 3 intercontinentais… E 7 bolas de ouro! Algo incomparável no mundo do futebol, como diz o seu pupilo Zvonimir Boban. “O clube pode ser centenário, mas parece que foi fundado há 25 anos pelo próprio Berlusconi”.

O perfil do louco

Foi dia 1 de Março de 1986, com uns liftings menos e alguns cabelos mais que Silvio Berlusconi se tornou presidente do AC Milan, contudo a sua grande estreia teria que esperar 3 meses mais. Em pleno Junho, no centro da cidade de Milão e perante 60 mil pessoas, apresenta a nova equipa do Milan. Os jogadores saiam de três helicópteros ao som das “Cavalgata das Valquirias” de Wagner. “Aquele dia perguntei-me quem era aquele louco” relembra o então jovem defesa Alessandro Costacurta. Numa Itália moldada sobre o caracter sóbrio e trabalhador dos donos da FIAT, o circo começava.

Berlusconi encaixa no perfil do jovem empreendedor que conseguiu o milagre no norte de Itália. Uma história repetida milhares de vezes á frente dos microfones. Filho de um empregado de banco e de uma dona de casa, cresce usando as roupas do pai ganha as primeiras liras revendendo material diverso aos colegas de escola. Cria a sua própria empresa e torna-se milionário. O ramo imobiliário e a televisão são os ubres do império Berlusconi. Nos anos 60 dedica-se a construir bairros nas periferias de Milão e denomina-os Milan 2 e Milan 3. Mais tarde cria uma pequena estação de televisão chamada Intermilano, que trata de converte-la em Império.

Banquetes, filosofia e karaté

Quando compra o AC Milan, Berlusconi tem já pouco de pequeno empresário. Como recorda Giuseppe Farina, o seu predecessor: “Na altura, quando ele decidiu comprar o clube, nem lhe pedi garantias bancarias”.

Showman em frente das câmaras, Silvio não comprou o Milan para se exibir, pelo contrário. Billy Costacurta recorda a primeira vez que se encontraram. “Estava a sair do duche e ainda não estava seco quando ele me pergunta se prefiro ser titular numa outra equipa ou jogar menos e fazer parte da melhor equipa do mundo”. Na altura o clube estava num dos períodos mais negros da sua história, tendo sido promovido da Serie B na época transacta. Os cofres do clube também não estavam no seu melhor momento, com uma divida que ascendia a 6 milhões de euros, o centro de estágios de Milanello alugava-se para festas e casamentos.

O plano de Berlusconi propõe melhorar a situação, isso passa por gerir o clube como uma das suas empresas. Aos jogadores que cumpram, promete-lhes um lugar na sua empresa de investimentos depois de acabarem a carreira. “Todos precisam de sentir que formam parte de um grupo”. Rodeia-se de homens da sua confiança como Galliani (sócio na Intermilano TV) e de ex-jogadores como Fábio Capello, que envia a Madrid com o intuito de estudar a organização do Real Madrid. Com o dossier de Capello nas mãos, decide modernizar Milanello contratando um psicólogo, um médico, um dentista e um ex-campeão de karaté, Bruno de Michellis, que criaria o Milan Lab.

Arrigo Sacchi? Esse é o meu homem!

Ao rigor industrial junta a imaginação do empreendedor, mas rapidamente se apercebe que o projecto precisa de caras novas. “Quando o conheci disse-me que seria a estrela do clube e dois meses depois vendeu-me” afirma o avançado Paolo Rossi. “Foi um gesto de inteligência, a minha carreira estava no declínio” admite o Bola de Ouro de 82. Com o treinador, a história repete-se. Tem a Trapattoni que tinha acabado com uma década gloriosa da Juventus, mas já tem um desconhecido debaixo de olho.

Em Agosto de 86, o recém promovido Parma vence o Milan num esquema táctico revolucionário baseado na pressão e na mobilidade ofensiva. Em Fevereiro do ano seguinte a história volta a repetir-se. Um par de meses mais tarde Sacchi recebe uma chamada de Ettore Rognoni, jornalista da Mediaset: “Arrigo, o Berlusconi quer ver-te”. O encontro tem lugar na Villa do presidente. Depois de 5 horas a discutir esquemas tácticos, Sacchi ausenta-se para ir á casa de banho e é então que Berlusconi confessa ao seu conselheiro: “Este é o meu homem”.

Il Cavalieri terá que defende-lo meses mais tarde quando os resultados não aparecem e os jogadores não acreditam no discurso do novo shaman, mas a decisão presidencial mantém-se firme. “Ele escolheu-me, ajudou-me e defendeu-me” recorda o treinador. Seguia-se a melhor equipa do mundo.

A genialidade de Silvio está em todo o lado, controla as concentrações, o balneário e até as tesouras. “Quando me estreei tinha o cabelo comprido e o presidente insistia que eu tinha que corta-lo. Resisti durante algum tempo, até que um dia puxou-me pela mão, meteu-me dentro de um carro e ele mesmo cortou-me o cabelo.” diz Francesco Coco. A sua mão perfila também os planteis. Uma noite em que o Milan perdia contra a Sampdoria por 3-0, decide viajar até Amsterdão e contrata Ruud Gullit e Van Basten. Além disso aposta pessoalmente pelos lombadas Baresi, Albertini, Costacurta e Maldini. “Representam o rigor e a seriedade da região”. Num país sempre em crise, Berlusconi nunca criou uma marca que “tropece”. “La grande Milan” era o sinónimo perfeito disso.

Suspeitas e mais suspeitas

E as historias sombrias? Paciência que já chegam, estamos a falar de Berlusconi. Desde o primeiro scudetto de 1988 que se festeja desmesuradamente na Lombardia e deixa um amargo de boca no resto do país. Aquele campeonato dominado do principio ao fim pelo Nápoles de Maradona dá uma volta inesperada a 3 jornadas do fim. O conjunto de Maradona perde em casa frente ao Milan e nas duas jornadas seguintes o treinador aposta por uma equipa em que não jogam os habituais titulares, o que levanta suspeitas que aquilo tinha mão do Il Cavalieri.

Este é só um dos muitos escândalos para os quais Berlusconi arranja sempre desculpa. “Essa decisão foi tomada pelos juízes para me anular politicamente”. Lavagem de dinheiro, contabilidade ‘flexivel’ e fundos de proveniência duvidosa são algumas das acusações que acabaram por cair misteriosamente. Membro 1812 de uma loja maçónica de Milão, Silvio sempre foi protegido pelas mais altas esferas. “Tinha ofertas mais interessantes, mas fizeram-me entender que caminho devia tomar. Berlusconi não me comprou o clube, tirou-mo das mãos” arrebata o ex-presidente.

De qualquer das formas, a aura de ilegalidade nunca afectou o clube. Todos os jogadores queriam jogar no Milan. Gianluigi Lentini estava condenado a nunca sair do Torino: “O clube estava em dificuldades financeiras, mas eu nunca quis sair. até que me ligou Berlusconi e enviou-me um helicóptero para ir almoçar com ele. Em menos de uma hora convenceu-me.” recorda Gigi, por quem Silvio deu 40 milhões de euros, montante record naquela altura. O seu poder de persuasão é tão grande, quanto o seu livro de cheques.

The show must go on

Quando comprou o Milan, o interesse era impulsionar o negocio das suas televisões. Futebol, câmaras e glória sempre foram um triângulo do qual ele nunca quis sair. Cada vitoria do Milan foi mais uma pedra no ‘monumento’ do seu ego. Porque se há coisa que ele não gosta é de partilhar cenário.

“Durante estes anos falou-se no Milan de Sacchi e de Capello, mas na verdade deveriam falar no Milan de Berlusconi”. Um ego sem fronteiras. Durante uma visita ao Papa João Paulo II soltou esta pérola: “Deixe-me dizer-lhe que me lembra o meu Milan. Viajam pelo mundo espalhando uma mensagem gloriosa: a imagem de Deus”.

Sempre usou o Milan como púlpito político. Os adeptos não foram o seu publico, senão o seu partido. Depois de um scudetto, um ‘tifoso’ disse-lhe: “Terás os votos que precisares se quiseres criar um partido. E se pudermos votar em ti, melhor ainda”.

O momento chegou em 1994, quando a operação “Mani polite” arrasou com a classe política italiana e abriu uma porta para Silvio. “Reuniu-nos e disse que estava preocupado que Itália caísse nas mãos dos comunistas” relembra Costacurta. Foi como uma analogia com o seu êxito desportivo. A data coincidiu com a final da Liga dos Campeões que venceu contra o Barcelona de Cruyff. Ao partido chamou-o Forza Itália e aos militantes “azzuri”. Em 2007 volta a Atenas para jogar a final contra o Liverpool e pede aos seus rapazes uma força para impulsionar a sua campanha eleitoral.

“Desde que te convertes em político é como se conheces uma nova mulher. E quando conheces uma nova, pensas menos nas anteriores”. A frase é de Boban, mas poderia ter sido dita por Silvio, para descrever o fim do romance rossonero. A política roubou a infalibilidade do seu Milan.

E verdade seja dita, quanto mais longe de San Siro, mais caiu a sua popularidade. Afogado pelos mercados, pelos escândalos sexuais com adolescentes e pelos seus interesses publico-privados, o triunfante Cavalieri perdeu o “cavalo”.

Desde a sua demissão em Novembro, uma das poucas aparições dei-se no Milan-Barcelona para a Liga dos Campeões. Um adepto aproximou-se dele para pedir que baixasse os impostos, ao que respondeu: “Já não sou ninguém”. O seu rosto iluminou-se ao voltar a falar sobre futebol e sobre as ‘bondades’ do estilo de Guardiola. No sorriso transparecia o desejo. Aos seus 75 anos, já demonstrou que a idade não é impedimento para nada.

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