Experiência versus Retorno Financeiro – Hora de Mudança no Futebol Português

13489476A experiência é um posto, diz o adágio popular. Para os clubes ditos ‘grandes’ do nosso futebol é um adágio que parece não ter grande sentido.

Portugal afirma-se cada vez mais como porta de entrada para jovens jogadores oriundos de todo o mundo, com especial incidência para os países da América do Sul como se pode comprovar pelas vastas fileiras de sul-americanos que engrossam os clubes da nossa Liga. Os jovens jogadores e os seus empresários olham para o nosso país, como trampolim para os seus sonhos de chegarem à ribalta do futebol europeu. Apesar de termos uma média de idades superior (26,01 anos)  à das cinco principais ligas europeias os jogadores que entram em Portugal são cada vez mais jovens. Atente-se nas mais recentes contratações dos três grandes do nosso futebol nas últimas épocas. David Luiz, Di Maria, Ola John, Derlis Gonzalez, Juan Iturbe, Valentin Viola, Reyes, James Rodriguez, Kelvin, Atsu só para citar alguns com menos de 21 anos à data da contratação. A aposta na juventude é facilmente explicável pela perspectiva de grandes retornos financeiros que os clubes esperam obter com a sua valorização e posterior venda para ligas mais competitivas tanto em termos económicos como em termos desportivos. No entanto, uma boa equipa constrói-se com uma mescla de experiência e juventude.

Em Portugal, aos 28 anos um jogador é considerado velho. É velho para ser contratado por um grande mas é muito novo para acabar a carreira. Só lhe restam duas opções. Aceita jogar numa equipa de menor dimensão desportiva ou tenta a sua sorte no estrangeiro em campeonatos mais vantajosos do ponto de vista financeiro, mas com pouca visibilidade. Neste ponto tenho que realçar a coragem e ousadia do Braga e de António Salvador que tem aproveitado os proscritos dos três grandes com os resultados que se conhecem. Jogadores como João Vieira Pinto, Nuno Gomes, Alan, Hugo Viana, César Peixoto, Quim, Beto entre outros relançaram as suas carreiras em Braga e criaram um clube de dimensão europeia.

Contudo, fazem falta jogadores experientes no meio de tanta juventude. Na época de 2012/2013 olhando para o plantel principal de Benfica, Porto e Sporting não conseguimos construir um onze inicial com jogadores acima dos 30 anos. No Benfica, Artur Moraes (31 anos), Paulo Lopes (34), Luisão (31), Carlos Martins (30) e Aimar (33) são os jogadores mais velhos. No Futebol Clube do Porto apenas Helton (34) e Lucho Gonzalez (31) pertencem a este clube. No Sporting a mesma coisa. Boulharouz (30) e Pranjic (30) são os jogadores mais velhos do plantel. No total temos nove jogadores dos quais três são guarda-redes. Se nos cingirmos aos que jogam com regularidade a lista diminui ainda mais. De referir que o jogador mais velho da nossa Liga é João Tomás com 37 anos.

Os jogadores mais velhos, além de darem profundidade aos plantéis trazem também com eles um grande capital de experiência que por vezes é crucial e fundamental para a história de uma época particularmente nas fases mais cruciais. Podem não ser sempre titulares, podem jogar poucos minutos, ou podem até jogar um só minuto em toda a época mas muitas vezes são eles que permitem ao clube alcançar os objectivos planeados transmitindo a sua experiência e conhecimentos aos mais jovens.

Olhando para Itália e Inglaterra, vemos os clubes a contratarem jogadores com idades consideradas proibidas em Portugal. Lembram-se de Rubinho, guarda-redes que passou pelo Vitória de Setúbal? Foi contratado pela Juventus aos 30 anos. Rodrigo Palacio foi contratado pelo Inter de Milão ao Génova aos 30 anos. Ferdinando Coppola chegou ao AC Milan aos 34 anos. Rui Costa chegou ao Milan já com mais de 30 anos. Michael Owen foi contratado pelo Manchester United já com mais de 30 anos também. São os chamados jogadores utilitários, que conseguem suprir as necessidades de uma época longa com diversas competições e em que o desgaste acumulado, as lesões e os castigos disciplinares são uma constante.

Imaginam em Portugal, Hugo Viana, Custódio, Alan, João Tomás, Ricardo Carvalho a serem contratados por Benfica, Porto ou Sporting com a idade que já têm? Que jeito não daria ao Benfica por exemplo um Hugo Viana ou um Custódio para suprir as vendas de Javi Garcia e Witsel.

Os clubes portugueses, principalmente aqueles que estão constantemente nas competições europeias, devem repensar a sua forma de gerir os planteis. A criação das equipas B veio possibilitar um maior leque de opções sempre que haja alguma lacuna na equipa principal. No entanto, suprir lacunas com jogadores inexperientes pode revelar-se muitas vezes catastrófico para as aspirações dos clubes e para a carreira do próprio jogador. Um mau timing de entrada na equipa principal pode hipotecar a vida futura de um jovem no seu clube de formação.

Com a entrada em vigor das novas regras de fair-play financeiro da UEFA e da atribuição de subsídios por parte da FPF aos clubes que tiverem mais jogadores portugueses tenho a sensação que este panorama vai mudar drasticamente nos próximos anos.

Texto de Bruno Miguel Espalha

 

Anúncios
This entry was posted in Geral.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s